As mulheres rurais do Cuanza-Sul e do Moxico desempenham um papel importante na produção de alimentos, na geração de rendimentos e na criação de emprego.
Apesar dos resultados alcançados na agricultura, na pecuária e noutras actividades, persistem dificuldades relacionadas com o financiamento, a disponibilidade de insumos, a alfabetização e o escoamento da produção.
Por ocasião do Dia Internacional da Mulher Rural, assinalado a 15 de Outubro, o Jornal de Angola ouviu empreendedoras e responsáveis do sector agrário das duas províncias, que destacaram os progressos alcançados e os constrangimentos ao desenvolvimento das actividades.
Experiência e empreendedorismo no Cuanza-Sul
Aos 76 anos, Maria de Fátima Pimenta Falcão, residente em Porto-Amboim, mantém-se activa na criação de gado bovino, actividade a que se dedica há cerca de quatro décadas. Com aproximadamente 200 cabeças, foi distinguida com o prémio nacional «Mulher de Mérito», na categoria de Pecuária.
A empreendedora iniciou o negócio em 1982, por influência de um criador de gado, e aprendeu a cuidar dos animais por via da experiência prática. Actualmente, também investe na hotelaria.
A manutenção da manada exige recursos consideráveis. «Só no ano passado, gastei mais de três milhões de kwanzas para a compra de medicamentos, água, combustível e salário do pessoal», revelou, aconselhando outras mulheres a investirem nas suas capacidades, independentemente da idade.
Em Cassongue, Arminda Luís, de 51 anos, dedica-se à apicultura e ao fabrico artesanal de sabonetes e sabão a partir de produtos derivados da actividade. Natural do Cuito, província do Bié, começou a trabalhar com o pai aos 18 anos e consolidou a sua actividade profissional em 2015. O sabonete produzido artesanalmente é comercializado a 600 kwanzas.
Na Conda, Margarida Diango dedica-se ao cultivo de feijão e milho e à criação de gado caprino. Os rendimentos obtidos na agricultura permitiram-lhe adquirir uma viatura para transportar os produtos aos mercados, facilitando a comercialização e o sustento da família.
Também naquele município, Lúcia Tchinawalile, de 68 anos, encontrou, na agricultura, uma nova ocupação após a reforma do ensino. Na localidade do Jombe, explora 46 hectares e, na última colheita referida, obteve 40 toneladas de feijão, duas toneladas de cebola e 30 caixas de alho. A exploração emprega 30 trabalhadores.
Entre outras mulheres que se destacam na economia rural da província encontram-se Joaquina Francisco, produtora de cereais e hortícolas, Maria Odete Santos, ligada à exploração da Fazenda Rio Uiri e à promoção do turismo rural, e Beatriz Mateus Prazeres, criadora de gado bovino em Porto-Amboim.
A chefe do Departamento de Políticas Familiares do Gabinete Provincial da Acção Social, Família e Igualdade do Género do Cuanza-Sul, Izílda Flávia Culófua, destacou o contributo das mulheres para a economia familiar e a produção alimentar.
«As mulheres empreendedoras são a força motriz nas comunidades rurais, sobretudo no sector familiar, que é responsável pela produção de alimentos», afirmou, defendendo o reforço do financiamento e dos apoios institucionais.
Estradas e insumos entre os principais desafios
O mau estado das estradas constitui um dos principais obstáculos ao escoamento dos produtos agrícolas no Moxico. A degradação das vias dificulta o transporte para os mercados e aumenta o risco de deterioração dos alimentos, reduzindo os rendimentos dos produtores.
«Reconhecemos o mau estado das vias que temos, mas o Governo local está a trabalhar na resolução deste problema de forma paulatina», afirmou Benjamim José.
A falta de fertilizantes e de outros insumos também afecta as cooperativas. Na cooperativa NKK, as camponesas Neze Kaluije Kanguia e Maria Tereza, com mais de 20 anos de experiência agrícola, encontram na produção a principal fonte de rendimento das suas famílias.
A organização cultiva arroz, milho e mandioca numa área indicada de aproximadamente 400 hectares. Segundo a presidente, Neze Kaluije, a falta de fertilizantes tem condicionado sobretudo a produção de arroz.
«Pedimos ao Executivo local que procure mecanismos de resolução deste problema, que tem deixado muitos de nós desmotivados e levado alguns a desistir, facto que nos preocupa, porque enfraquece o sector agrícola», afirmou.
Os testemunhos recolhidos no Cuanza-Sul e no Moxico mostram que as mulheres rurais contribuem para a produção alimentar, a criação de emprego e a economia familiar. Contudo, a expansão das suas actividades depende do acesso ao crédito, à formação, aos insumos agrícolas e a melhores condições de transporte e comercialização.
Alfabetização e crédito no Moxico
No Moxico, o chefe do Departamento do Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA), Benjamim José, considera que a alfabetização e o acesso ao crédito são fundamentais para aumentar a produção e fortalecer as cooperativas de mulheres rurais.
Segundo o responsável, as limitações de escolaridade dificultam, em alguns casos, a elaboração de projectos e a preparação da documentação necessária para obter financiamento.
A província conta com aproximadamente 30 cooperativas de mulheres rurais inscritas no IDA. Entre as iniciativas de apoio à actividade agrícola, o responsável mencionou o MOZAP 3, o PRODESI e a Cadeia de Valor do Leste.
Benjamim José salientou que as mulheres participam activamente na preparação dos terrenos, na sementeira e noutras etapas da produção, contribuindo para a segurança alimentar e o sustento das famílias. Reconheceu, contudo, dificuldades no acesso à terra e limitações estruturais que condicionam o crescimento do sector.
Selma Queiróz, Casimiro José | Sumbe e José Rufino | Luena




