A psicóloga Shendylene Elias defende maior valorização das formas de orientação e apoio existentes nas comunidades afastadas dos grandes centros urbanos, considerando que o acesso à psicologia em Angola não deve ser pensado apenas a partir da realidade de quem vive nas cidades e tem contacto com a informação.
A especialista participou no programa “Saúde em Sintonia”, da Rádio Correio da Kianda, que abordou o tema “Luto no contexto do Setembro Amarelo”, ocasião em que chamou atenção para as barreiras culturais, linguísticas e geográficas que ainda dificultam o acesso aos serviços de psicologia no país.
Shendylene Elias considera necessário olhar para as mulheres que vivem em comunidades onde o acesso à escolaridade e à informação é limitado, defendendo que não se deve exigir delas o mesmo conhecimento formal sobre psicologia que existe nos grandes centros urbanos.
Para a psicóloga, é importante reconhecer que, mesmo quando uma mulher não conhece o conceito ou a palavra “psicologia” na sua língua local, pode existir na comunidade uma pessoa com experiência e sabedoria suficientes para orientar e apoiar quem atravessa momentos de sofrimento.
A especialista entende, por isso, que os conhecimentos comunitários não devem ser automaticamente desvalorizados por não terem origem na formação académica.
Shendylene Elias considera igualmente ilusório defender que todas as pessoas devem necessariamente passar por um psicólogo, tendo em conta a capacidade actualmente existente no país para responder à procura por serviços de saúde mental.
A psicóloga questionou a relação entre o número de profissionais disponíveis e a população angolana, lembrando que o problema se agrava nas localidades onde o português não é a principal língua de comunicação.
Para a especialista, é necessário criar condições para que diferentes comunidades tenham acesso a profissionais capazes de comunicar nas línguas locais.
Shendylene Elias criticou ainda a excessiva concentração das discussões sobre psicologia em Luanda, defendendo uma abordagem nacional que tenha em conta as diferentes realidades sociais e culturais do país.
“Então o problema é muito maior, não podemos reduzir a coisa a Luanda. Temos de pensar Angola, mas pensar com olhos de ver”, afirmou.
A psicóloga questionou também a quem se destina actualmente o discurso sobre a chamada “era da psicologia”, tendo em conta que uma parte da população não dispõe sequer de acesso regular à internet, televisão ou outros meios de informação.
“Prega-se que estamos na era da psicologia, mas para quem? Não se pode pensar só no angolano que está no Instagram e no meu parente que está em Camacupa?”, questionou.
Segundo Shendylene Elias, uma pessoa que vive numa comunidade distante pode não ter acesso à internet ou sequer saber que existe um serviço de psicologia, mas pode contar com formas próprias de orientação dentro da comunidade, incluindo pessoas mais velhas, líderes comunitários ou sobas.
“Se calhar na zona onde ele está tem um orientador, ou um soba”, exemplificou.
A especialista alerta que ignorar essas estruturas pode significar desvalorizar experiências e práticas comunitárias que desempenharam um papel importante durante gerações.
Para Shendylene Elias, a valorização da psicologia não deve significar o apagamento da história e da cultura das comunidades, defendendo antes uma articulação entre o conhecimento científico e as estruturas tradicionais de apoio.
A psicóloga estabeleceu ainda uma comparação com o papel das parteiras tradicionais, considerando que seria igualmente inadequado exigir determinadas práticas às comunidades sem antes criar condições para que tenham acesso aos serviços formais.
“Se você não criou as condições, como é que vai exigir tanto, com frases como ‘as pessoas não procuram pelos psicólogos’?”, questionou.
A especialista defende, assim, uma abordagem de saúde mental que tenha em conta a realidade económica, cultural, linguística e geográfica das diferentes comunidades angolanas, para que o acesso à psicologia não fique limitado às populações com maior proximidade dos grandes centros urbanos.



