Arleth Tchilanda Pessela, carinhosamente conhecida como “Cadeirante Chique”, é um exemplo de coragem, perseverança e superação. Apesar das limitações físicas e dos inúmeros desafios que enfrentou desde a infância, a jovem recusou-se a permitir que a deficiência definisse o seu futuro, transformando as adversidades em motivação para concretizar os seus sonhos
Residente no bairro Bom Pastor, na cidade do Huambo, Arleth enfrenta diariamente obstáculos que vão desde o mau estado das vias, até à falta de acessibilidade aos edifícios públicos e privados.
As dificuldades de mobilidade, agravadas pela inexistência de infra-estruturas adaptadas, tornam cada deslocação um verdadeiro desafio. Ainda assim, nunca desistiu de lutar por uma vida digna e independente.
Mulher de múltiplos talentos, Arleth é pasteleira, cabeleireira, cantora, atleta de basquetebol em cadeira de rodas e concluiu, no passado mês de Julho, o ensino médio no curso de Estomatologia, numa instituição privada da cidade do Huambo.
A jovem contou que deixou de andar aos seis anos. Recorda que, certo dia, acordou com fortes dores na perna direita e, pouco tempo depois, a outra perna também começou a perder força, até ficar impossibilitada de caminhar. Apesar dos inúmeros esforços dos pais, que procuraram tratamento em vários hospitais e consultaram diversos especialistas, nunca foi possível reverter a situação.
Com o passar do tempo, o seu estado de saúde agravou-se. O tronco começou a curvar-se e o braço esquerdo ficou paralisado. Durante cerca de dois anos permaneceu com o corpo imobilizado em gesso, que era substituído de 30 em 30 dias. Nesse período, não conseguia sequer sentar-se.
A recuperação foi lenta e exigiu muita persistência. Graças às sessões de fisioterapia realizadas no Centro de Medicina e Reabilitação Física Princesa Diana, voltou gradualmente a movimentar os braços e conseguiu permanecer sentada sem ajuda.
Arleth reconhece que a fase mais difícil foi aceitar a nova realidade. Confessa que, durante algum tempo, pensou em pôr fim à própria vida, mas hoje considera esse pensamento um dos maiores erros da sua existência.
“Hoje percebo que vale a pena viver. Se tivesse desistido naquela altura, teria perdido todas as oportunidades que a vida ainda me reservava”, afirmou.
Após permanecer quase 18 anos afastada da escola, decidiu vencer o medo e regressar aos estudos. A decisão significou quebrar barreiras emocionais e enfrentar novamente o ambiente escolar, onde anteriormente havia interrompido a formação na 9.ª classe.
“O meu percurso escolar foi muito difícil. Estudei em várias escolas desde a iniciação até à 9.ª classe e sofri muita discriminação por parte de colegas e até de alguns professores. Por isso, tive receio de voltar a estudar, porque pensava que iria enfrentar os mesmos obstáculos”, contou.
Segundo explicou, o preconceito foi sempre o maior desafio. “Quando chegava à sala de aulas, olhavam para mim como se eu fosse uma pessoa estranha. Sentia que muitos não queriam a minha presença apenas por eu ser cadeirante. Foi isso que me levou a abandonar os estudos”, recordou.
Arleth considera que as dificuldades, vividas durante a infância e a adolescência, contribuíram para fortalecer a sua personalidade e ajudá-la a aceitar, com maturidade, a sua condição.
Em 2022 decidiu retomar definitivamente os estudos e matriculou-se no Instituto Técnico Privado de Saúde Rei David. A escolha da instituição deveu-se, sobretudo, ao facto de o edifício possuir elevador, o que lhe garantia melhores condições de acessibilidade.
Segundo relatou, depois de conhecer a sua história, a direcção da escola sensibilizou professores e estudantes para que a acolhessem com respeito e inclusão.
“O director apresentou a minha história à comunidade escolar e pediu que todos me tratassem com naturalidade. Foi exactamente isso que aconteceu. Durante os quatro anos de formação senti-me acolhida e nunca enfrentei dificuldades de integração”, revelou.
Destacou que o ambiente de respeito e solidariedade vivido na instituição foi determinante para nunca pensar em desistir da formação.
O maior desafio surgiu durante o estágio curricular, realizado no Centro de Saúde do Casseque, localizado a mais de dez quilómetros da sua residência.
A principal dificuldade consistia no transporte diário. Encontrar um táxi disposto a transportar uma passageira em cadeira de rodas nem sempre era fácil. Depois de várias tentativas, conseguiu sensibilizar um motorista, que passou a levá-la regularmente ao local de estágio.
Mesmo diante dessas dificuldades, desempenhou as suas funções com dedicação e profissionalismo.
Durante o estágio realizou diversas extracções dentárias, sobretudo em crianças, uma experiência que considera marcante na sua formação profissional.
“Senti-me realizada por poder aliviar a dor de muitas pessoas. Foi nesse momento que percebi que era realmente capaz de exercer a profissão que escolhi”.
A rotina diária exigia grande esforço físico e emocional. Saía de casa por volta das 7h30 em direcção ao centro de saúde. Após o estágio, seguia directamente para as aulas e apenas regressava a casa ao final da tarde, enfrentando frequentemente chuva e outras dificuldades durante o percurso.
No primeiro dia em que fiz uma extracção dentária fiquei muito nervosa. Tive receio ao ver sangue, mas, com o tempo, fui ganhando confiança e desenvolvendo cada vez mais o gosto pela profissão, principalmente no atendimento às crianças, revelou.
A interlocutora lamenta que ainda existam famílias que escondem os filhos com deficiência, impedindo-os de conviver com a sociedade.
Aconselhou que uma criança cadeirante precisa sair, estudar, conviver e participar da sociedade. A família deve ser a primeira a aceitá-la. Quando isso acontece, a própria comunidade passa a agir da mesma forma. “Felizmente, sempre tive uma família que me aceitou como sou”, disse.
Depois de concluir o ensino médio, Arleth Pessela pretende ingressar no ensino superior para aprofundar os conhecimentos na área da Estomatologia e continuar a servir a sociedade.
“O meu sonho é tornar-me uma profissional de excelência e ajudar todas as pessoas que precisarem dos meus serviços”, garantiu.
Paixão pelo desporto
Em 2020, Arleth Tchilanda Pessela enfrentou um dos momentos mais difíceis da sua vida com a morte do pai, a pessoa que mais a apoiava. A perda mergulhou-a numa profunda depressão, da qual conseguiu sair graças ao desporto adaptado.
A jovem conta que foi através do basquetebol em cadeira de rodas que recuperou a auto-estima, voltou a acreditar nas suas capacidades e reencontrou o sentido da vida.
Disse que hoje é atleta de basquetebol em cadeira de rodas e já participou em vários campeonatos nacionais. Sempre contou com o apoio do presidente provincial do Comité Paralímpico, Jaime Chilala, e de toda a Associação Provincial das Pessoas com Deficiência.
Segundo explicou, a convivência com outros atletas permitiu-lhe perceber que existiam pessoas a enfrentar dificuldades ainda maiores do que as suas, muitas delas sem qualquer apoio familiar.
Quando foi convidada para integrar a selecção provincial de basquetebol adaptado, confessou que a sua maior preocupação era saber como conseguiria praticar a modalidade, tendo em conta as limitações de mobilidade.
Apesar das dúvidas iniciais, aceitou o desafio e rapidamente conquistou o seu espaço na equipa. Participou no seu primeiro Campeonato Nacional, em Benguela, em 2022, de que foi campeã. E, quando regressou, junto com a equipa, foram recebidos no Palácio do Governador. No ano passado também participou no Campeonato Nacional realizado no Bengo.
Revelou que, numa fase inicial, a mãe mostrava-se receosa em autorizá-la a participar nas competições, por nunca a imaginar a deslocar-se sozinha.
Hoje, afirma que o desporto representa uma das maiores conquistas da sua vida.
“Foi graças ao desporto que consegui vencer a depressão depois da morte do meu pai. Os meus colegas de equipa deram-me força para continuar e serei eternamente grata por isso”.
Além da recuperação emocional, o desporto ajudou-a a conquistar a independência. Actualmente, desloca-se sozinha para os treinos no Pavilhão Serra Van-Dúnem, algo que antes parecia impossível.
Ao longo desta caminhada, Arleth aprendeu que a deficiência não diminui o valor de uma pessoa. Hoje ela percebeu que uma pessoa com deficiência é igual a qualquer outra. A única diferença é que algumas caminham pelos próprios meios e outras utilizam equipamentos de apoio.
Empreendedorismo
Determinada a construir o próprio futuro, encontrou no empreendedorismo uma forma de afirmar a sua independência financeira.
“Já não me preocupo com aquilo que as pessoas dizem sobre mim. Não preciso que sintam pena de mim, porque sou capaz de fazer muitas das coisas que qualquer outra pessoa faz. Não podemos assumir a condição de mendigos apenas porque temos uma deficiência. Também somos capazes de trabalhar e produzir”, afirmou.
Em casa, dedica-se à confecção artesanal de peças em croché. Produz sapatinhos para bebé, camisolas, chapéus e diversos artigos, uma habilidade que desenvolveu de forma autodidacta através de vídeos disponíveis na plataforma YouTube.
Paralelamente, dedica-se à pastelaria, confeccionando bolos por encomenda para uma clientela cada vez mais fiel.
Segundo explicou, as redes sociais desempenham um papel importante na divulgação do seu trabalho.
“Aproveito o número de seguidores que tenho no Facebook para promover os meus produtos. O meu sonho é crescer cada vez mais e, no futuro, abrir uma pastelaria e um salão de beleza”, disse.
Arleth como artista
Além da actividade profissional e desportiva, integra o grupo musical gospel “Vencedores de Cristo”, constituído por pessoas com diferentes tipos de deficiência, entre elas cadeirantes, pessoas com deficiência visual, auditiva e albinos.
O coral reúne membros de várias denominações religiosas e realiza ensaios todos os sábados, no Pavilhão Serra Van-Dúnem, contando com o apoio do secretário provincial da Igreja Congregacional em Angola, Gilberto Ndunduma.
Segundo Arleth, o grupo nasceu para combater o preconceito que ainda existe até em algumas igrejas.
Criámos este grupo porque ainda há pessoas com deficiência que são marginalizadas nas suas congregações. Os “Vencedores de Cristo” encontraram um espaço para servir a Deus com dignidade, disse.
A jovem considera que o projecto tem contribuído para mudar a forma como a sociedade encara as pessoas com deficiência.
“Hoje somos vistos de maneira diferente. As pessoas reconhecem que também podemos cantar, pregar, dirigir cultos e servir a comunidade. Aproveitamos igualmente para sensibilizar as famílias a integrarem os seus filhos com deficiência na sociedade, em vez de os manterem isolados”.
A Cadeirante Chique defende que a inclusão começa dentro da própria família, os pais não devem esconder os seus filhos por causa da deficiência. Ninguém escolhe nascer com limitações físicas. A família deve ser a primeira a aceitar e valorizar os seus filhos.
Além das actividades sociais e religiosas, Arleth é frequentemente convidada para participar em programas radiofónicos e debates sobre temas ligados à inclusão social, direitos das pessoas com deficiência e cidadania.
No final da entrevista, deixou uma mensagem de esperança dirigida a todas as pessoas que enfrentam dificuldades.
“O mundo não acaba por termos uma deficiência. Existem pessoas internadas em hospitais, ligadas a aparelhos para respirar, que gostariam de ter a oportunidade de viver como nós. Eu estou numa cadeira de rodas, mas respiro, vivo e tenho muitos motivos para agradecer a Deus. É por isso que nunca deixo de acreditar nos meus sonhos”.




