Ao longo de décadas, a Rádio Nacional de Angola (RNA) acompanhou diferentes momentos da história do país, levou informação às comunidades e deu voz a várias realidades sociais e culturais. A sua presença ultrapassou o espaço tradicional da emissão radiofónica e entrou numa nova fase, marcada pela Internet, pelos podcasts e pelas redes sociais.
No dia 5 de Outubro, profissionais da emissora, académicos e ouvintes reflectem sobre o percurso da rádio pública, os desafios actuais e o futuro de um meio que continua a desempenhar um papel importante na sociedade angolana.
Para quem trabalha na RNA, a transformação tecnológica alterou os métodos de produção e a relação com o público, mas também abriu novas possibilidades de aproximação.
Uma rádio próxima das comunidades
O jornalista e director de programas da RNA, Edson de Menezes, ligado à emissora há 19 anos, considera a rádio pública fundamental na aproximação e inclusão dos cidadãos, sobretudo num país com a dimensão territorial e a diversidade cultural de Angola.
“A Rádio Nacional de Angola é a única que vai onde mais ninguém vai. Fala as línguas nacionais, dá microfone a quem não tem voz e encurta distâncias”, afirmou.
A emissora passou a combinar a emissão convencional com a FM, a Internet e diferentes plataformas digitais, incluindo o projecto RNA Podcasts.
Para Edson de Menezes, a transformação digital permite colocar os conteúdos radiofónicos no telefone dos angolanos e alcançar públicos dentro e fora do país.
Formação acompanha evolução tecnológica
A mudança tecnológica também alterou os processos de produção. Os antigos métodos deram lugar a softwares de edição, estúdios automatizados e equipamentos modernos.
Edson de Menezes defende, por isso, formação permanente para os profissionais.
“Hoje a produção é feita em softwares de edição, temos estúdios automatizados e modernos. Obviamente, essa evolução exige formação permanente dos profissionais para que se garanta mais qualidade, rapidez e criatividade na rádio”, explicou.
A mesma preocupação é partilhada por Elione Falcão, jornalista, realizadora, locutora e chefe de produção da Direcção de Programas da RNA.
Ligada à emissora desde 2014, Elione Falcão passou por vários programas, entre os quais Magazine da Manhã, Boa Noite Angola, Dia Novo, Esteira da Música, Roda de Amigos, Constelações, Palavras e Textos e Contacto. Actualmente, tem maior assiduidade em
“A Casa da Rádio”.
“Fazer rádio não é apenas ter voz. É preparação, disciplina, sacrifício e responsabilidade”, sublinhou.
Nova grelha de programas acompanha modernização
A RNA inicia, hoje, uma nova grelha de programas, resultado das Jornadas de Produção Radiofónica realizadas em Julho. A mudança abrange os canais de Luanda e as rádios provinciais e prevê novos programas, rubricas e formatos, com maior participação de jovens profissionais, sem prescindir da experiência dos quadros mais antigos.
A nova programação prevê, igualmente, mais reportagens e directos, maior interacção com os ouvintes e reforço dos conteúdos destinados às crianças, jovens e famílias. Os canais dedicados às línguas nacionais e ao desporto também terão novos conteúdos.
A reestruturação acompanha o processo de modernização técnica da emissora. Através do Programa de Modernização e Expansão do Sinal da RNA (PEMx), a cobertura nacional, actualmente estimada em 63 por cento do território, deverá atingir 76 por cento e, com o reforço dos sistemas existentes, chegará a 83 por cento. Em Luanda, a cobertura alcança aproximadamente 99 por cento.
O processo inclui, ainda, a passagem do analógico para o digital, a modernização dos estúdios e maior automação. A RNA prevê, igualmente, reforçar a presença nas plataformas digitais através de um novo estúdio multiplataforma, destinado à produção de podcasts, conteúdos audiovisuais e transmissões em vídeo.
Com o Centro Nacional de Monitorização, inaugurado em 15 de Setembro, os centros emissores passam a ser acompanhados remotamente e em tempo real, permitindo respostas técnicas mais rápidas.
A modernização procura, assim, combinar maior cobertura e qualidade técnica com uma programação mais próxima dos ouvintes, mantendo a missão de serviço público sintetizada no lema “Unimos o País”.
Memória que precisa de novas plataformas
O professor universitário e mestre em Ciências da Comunicação Mauyr Machado, investigador da história dos meios de comunicação, considera que a modernização da RNA deve preservar o património acumulado ao longo das décadas.
“A Rádio Nacional de Angola não é apenas uma rádio. É uma voz que atravessou a história de Angola. É memória, é companhia, é presença”, afirmou.
A ouvinte Tekas Fortunato considera importante preservar a experiência dos profissionais que construíram a RNA e, ao mesmo tempo, integrar as novas gerações.
Defende maior diálogo entre profissionais experientes e jovens, assim como a diversificação dos canais de distribuição através de aplicações, podcasts e plataformas digitais.
Emissora que fala com as comunidades
Para Elione Falcão, a rádio pública deve informar, formar, educar e aproximar, com verdade, rigor, responsabilidade e isenção.
Num país marcado pela diversidade geográfica e cultural, entende que a rádio continua a ser uma ferramenta importante para chegar a comunidades com acesso limitado a outras plataformas.
A aproximação, considera, não deve significar apenas falar para as pessoas, mas também ouvi-las e dar visibilidade às suas preocupações e iniciativas.
Saúde, educação, agricultura, emprego, segurança, ambiente, cultura e economia familiar são alguns dos temas que devem integrar a agenda da rádio pública, afirmou.
“A rádio pública deve ser uma ponte entre as instituições e os cidadãos, mas também um espaço onde diferentes comunidades possam fazer ouvir a sua voz”, frisou.
O desafio das novas gerações
Os hábitos de consumo de informação também mudaram. Os jovens recorrem cada vez mais ao telefone, às redes sociais, aos vídeos e aos podcasts.
Para Elione Falcão, a RNA precisa de acompanhar essa transformação sem perder a sua identidade.
“Não basta esperar que o jovem venha procurar a rádio. Temos também de ir ao encontro dele”, considerou.
A profissional defende maior investimento nas plataformas digitais e em conteúdos adaptados aos novos hábitos, sem comprometer a qualidade e a responsabilidade jornalística.
Da bobina aos estúdios digitais
A transformação tecnológica da RNA também é testemunhada por Adérito Fernandes, profissional da área técnica de som ligado à emissora desde 1987.
Ao longo da carreira, acompanhou a passagem das bobinas e antigas consolas para os actuais sistemas digitais. As experiências profissionais no estrangeiro permitiram-lhe conhecer equipamentos e métodos utilizados em emissoras de Portugal, África do Sul, Egipto, Reino Unido e Brasil.
Para o técnico, a evolução exige formação permanente. Jornalistas, operadores e outros profissionais devem dominar as ferramentas utilizadas e compreender as mudanças no sector.




