Trabalhadores angolanos denunciam despedimentos e discriminação no Projeto Kaombo da Saipem

Luanda — Mais de 300 trabalhadores angolanos afetos ao projeto petrolífero FPSO Kaombo, operado pela empresa italiana Saipem Luxembourg e com sede em Talatona, Luanda, subscreveram uma carta de protesto coletivo dirigida ao ministro dos Recursos Minerais, Petróleos e Gás, Diamantino Pedro Azevedo, denunciando práticas que consideram “discriminatórias, injustas e socialmente insustentáveis”.
No documento, os trabalhadores contestam uma onda de despedimentos considerados “injustificados”, alegadamente promovida pela atual direção da unidade, apesar de o projeto manter níveis estáveis de produção acima dos 110 mil barris de petróleo por dia. Segundo os signatários, não há qualquer crise de produção nem redução do preço do barril que justifique a medida.
A carta acusa o atual diretor-geral da unidade, de nacionalidade estrangeira, de implementar uma gestão “marcada pelo racismo velado, exclusão dos quadros nacionais e favoritismo aos expatriados”. Segundo os trabalhadores, os profissionais angolanos foram afastados de reuniões e decisões importantes, sendo tratados como “segunda categoria”.
Além disso, os protestos apontam que os nacionais, apesar de serem responsáveis pelas tarefas de maior risco no ambiente offshore, continuam a receber os salários mais baixos do setor e enfrentam grandes dificuldades para ter acesso a crédito ou adquirir habitação própria, contrastando com os altos benefícios atribuídos a supervisores estrangeiros, que incluem motoristas, alojamento em condomínios de luxo e subsídios mensais avaliados em mais de 20 mil dólares.
Em um dos trechos mais críticos, os trabalhadores afirmam que “um único expatriado tem custos mensais superiores ao salário coletivo de vários trabalhadores nacionais, sem que isso seja objeto de auditoria ou revisão”.
O protesto também denuncia alegados conflitos de interesse na estrutura da empresa. Os funcionários acusam três altos responsáveis — incluindo Luís Morais e Pedro Ferreira de Almeida — de manipular processos internos, manter dupla identidade (apresentando-se como portugueses perante a empresa e como angolanos junto das autoridades) e de obstruírem denúncias enviadas ao quartel-general da Saipem na Itália.
“Várias denúncias e abaixo-assinados foram enviados à sede da empresa, mas os documentos têm sido sistematicamente destruídos ou ignorados por interferência direta dos visados, com ajuda de facilitadores locais”, diz o texto.
Os trabalhadores ameaçam intensificar os protestos caso não haja intervenção urgente das autoridades. De acordo com fontes internas, está em curso uma recusa coletiva de desembarque prevista para sexta-feira, até que o diretor do projeto se apresente e dialogue diretamente com os trabalhadores.
Os signatários pedem ao Governo a suspensão imediata dos despedimentos, a responsabilização dos gestores envolvidos e a proteção dos postos de trabalho dos angolanos, em nome da justiça social e da soberania nacional no setor petrolífero.
A empresa Saipem ainda não se pronunciou oficialmente sobre as alegações.


