Dezenas de Makixi (palhaços) desfilaram, ontem, nas principais ruas da sede do município de Cazombo, capital da província do Moxico-Leste, um ritual que marca a abertura da 12ª edição do Festival Internacional Tradicional do Povo Luvale, denominado “MIZE”.
Antes da aparição pública, os Makixi cumprem um ritual no cemitério das antigas rainhas Nhakatolo, que fica cerca de 20 quilómetros do centro de Cazombo, onde pulam em cima dos túmulos, com reverência, gestos enérgicos e sons guturais. Depois do ritual, avançam em direcção às pessoas que se encontram no entorno, com algum tumulto e, com corpos todos cobertos por uma segunda pele multicolorida, portam armas e pedaços de paus.Feito o ritual no cemitério, os palhaços formaram uma fila e seguiram em direcção à vila, e com essa procissão de mascarados se inicia o Festival Internacional Tradicional Luvale. Com máscaras de traços marcantes e aparência imponente, as personagens desempenham funções de educação, preservação da ordem social, recreação e intimidação. A sua manifestação está intimamente ligada ao Mucanda, o ritual tradicional de circuncisão masculina, considerado um dos mais elevados símbolos da identidade cultural dos povos Luvale. É neste contexto que os Makixi surgem como guardiões da tradição, orientadores da juventude e defensores dos costumes ancestrais. O ponto mais alto do festival está reservado para hoje, na Arena Vaka Chinhama, localizada no bairro Vambunda, cuja programação começa com a entrada cerimonial das autoridades governamentais, das lideranças tradicionais e, por fim, a dos Makixi. A entrada das lideranças tradicionais, em particular, envolve um complexo cerimonial que expressa a estrutura segmentar da chefia Luvale, traduzida contemporaneamente em Angola pelo estabelecimento das categorias de Sobeta, Regedor e Rainha. Uma vez dentro da arena, a rainha Nhakatolo posiciona-se num camarote especial, situado no centro da plateia principal, enquanto os Makixi ficam do lado oposto, onde também há um espaço de honra reservado à Kayipu, tido como o rei dos palhaços. Em seguida, uma extensa narrativa de origem e sucessão dos chefes Luvale (kulifukula) é recitada por um orador especializado e, de seguida, um carneiro é imolado no centro da arena em homenagem aos chefes Luvale e seus ancestrais, representados pela figura de Kayipu. Por fim, as diversas autoridades presentes discursam em um palanque improvisado, entre as quais, a rainha Nhakatolo, os dirigentes da corte real e representantes do Governo angolano. O Festival Tradicional “MIZE” é um dos maiores eventos culturais da região Austral da África, que celebra a História, os ritos e a identidade daquele povo que está distribuído em Angola, na Zâmbia e na República Democrática do Congo (RDC). MIZE significa “arbustos lenhosos” e remonta ao século XVIII, derivado de um refúgio histórico nas margens do Rio Zambeze, usado pelo Rei Caquengue Tchivanda Sacaiombo a fim de proteger o seu povo e salvaguardar tradições. Com as transformações sociais ao longo dos anos e o firme propósito de manter viva a identidade cultural do povo Luvale, o projecto foi sendo aperfeiçoado e, em 2010, realizou-se a primeira edição do festival, no formato moderno, com uma organização mais estruturada. Nesta edição, pela segunda vez, as honras tradicionais serão prestadas à Rainha Nhakatolo Ngambo, representada por Ana Bela Ngambo, uma figura central na História e unidade do povo Luvale.O Festival Internacional Tradicional Luvale também é celebrado na Zâmbia. O povo Luvale é um grupo bantu e matrilinear originário da região dos Grandes Lagos, que habita principalmente na província do Moxico-Leste, além de áreas da Zâmbia e da República Democrática do Congo.




