A riqueza dos provérbios nos processos de comunicação no quotidiano e na criação artística foi destacada, ontem, durante o seminário, acolhido no Instituto Superior de Ciências da Educação de Luanda (ISCED), que reuniu especialistas angolanos e brasileiros.
Com duração de mais de três horas, o escritor Abreu Paxe e a investigadora brasileira Fabiana Carneiro debateram questões relativas à produção contra-hegemónica de conhecimento, à investigação da forma literária em relação a outros campos artísticos e sobre os desafios do ensino-aprendizagem das poéticas assentadas na voz. O também docente universitário Abreu Paxe, um dos promotores do evento, animou a palestra subordinada ao tema “Provérbios nos Processos Comunicacionais”. Na sua intervenção, referiu que os adágios subsistem na imagem das coisas e está sempre em busca de outras vozes, nunca vão ser rectos, “entretanto, inquieta-nos a pouca atenção dada às diversas e complexas inscrições dos provérbios africanos e negro-diaspóricos na tessitura cultural global. O encontro, reforçou, ajudou a compreender a potência do provérbio no que diz respeito à construção de vínculos comunitários e ao bem viver das populações negras e sublinha também o carácter transgressor do adágio em relação à lógica dicotómica e simplificadora. Quanto à contribuição dos provérbios na preservação da oralidade e da identidade cultural angolana, o escritor realçou que resguardam e actualizam saberes de várias ordens que, em suas expressões características a ver com elementos significativos das epistemologias bantu. Na sua perspectiva, as instituições devem reconhecer a relevância dessas expressões, buscar formular categorias de análise e interpretação coerente aos fundamentos epistemológicos que as constituem, interagir com as mesmas tendo em vista a sua contemporaneidade e o seu dinamismo. Com a realização deste encontro, ressaltou, fortalece o campo de estudos académicos acerca dos provérbios, que estabeleça interlocução com sujeitos da sociedade angolana de modo amplo, que construa recursos para o aprimoramento das reflexões e dos materiais didáctico-teóricos das oralituras. Literatura de autoria negra A investigadora Fabiana Carneiro referiu que há décadas que tem trabalhado com a investigação sobre a literatura de autoria negra, num debate frequente sobre as matrizes que constituiem a produção literária no Brasil, onde está muito patente a etimologia bantu. A investigadora definiu os provérbios como uma oralitura negro-diaspórica que actualiza e inscreve os saberes africanos como matrizes civilizacionais do Brasil. Por exemplo, sublinhou que, no Brasil tem um campo de discussão que se atenta aos adágios, porém, de forma “tímida”, por isso, estar em diálogo com professores angolanos é uma experiência enriquecedora “É necessário pensar como os provérbios se encontram nos textos escritos, mas, além disso, são visíveis na vida quotidiana das pessoas nas comunidades, assim como mas memórias das nossas famílias”.. Na sua comunicação, a prelectora brasileira Fabiana reforçou que os provérbios têm um carácter pedagógico, ético, e uma “força de lei” que resguarda de modo codificado ensinamentos bastante valiosos e ajudam no bem viver das comunidades negras na diáspora. O encontro contou igualmente com a prelecção do investigador e professor brasileiro José Balbino, que aproveitou a ocasião para partilhar com os estudantes e professores angolanos o conhecimento que tem sobre “Os provérbios no Processos Comunicacionais”.




