Os escritores da província do Huambo defenderam a necessidade de reforçar o incentivo à produção literária nacional e local, promover o hábito de leitura nas escolas, revitalizar as bibliotecas e dinamizar a realização de feiras do livro, com vista à valorização da cultura e à preservação da memória colectiva.
A posição foi defendida, na terça-feira, no âmbito das comemorações do Dia Mundial do Escritor, assinalado no mesmo dia, durante uma palestra, onde o prelector Francisco José Tchilonga abordou o tema “Mitos na Literatura Oral”, destacando a importância de aproximar os livros dos leitores por meio de obras que retratem a realidade das comunidades, a sua cultura e ancestralidade.
Na sua intervenção, Francisco Tchilonga defendeu que escritores e académicos devem assumir um papel activo na investigação, no registo e na divulgação dos conhecimentos tradicionais das comunidades, muitos dos quais são transmitidos oralmente de geração em geração.
Conforme o escritor, a preservação desses saberes passa, entre outras iniciativas, pela realização de pesquisas nas Ombalas, com recurso aos testemunhos dos anciãos, considerados guardiões da tradição e da memória colectiva.
O prelector alertou para o risco de desaparecimento de parte desse Património Imaterial, caso a transmissão dos conhecimentos ancestrais às novas gerações não seja assegurada. Por isso, apelou ao reforço da produção literária, à valorização das manifestações culturais e ao registo escrito das tradições, de modo a garantir a sua preservação e divulgação junto das gerações vindouras.
Francisco Tchilonga destacou igualmente a importância de recolher e debater os conhecimentos partilhados no Ondjango, espaço tradicional de encontro e transmissão de saberes, considerando que essa prática contribui para preservar e actualizar a instituição cultural, aproximando-a dos mais jovens.
Como exemplo da necessidade de aprofundar a investigação sobre as tradições locais, referiu a realização anual da festa dos Bons Ventos “Eyele”, nas Ombalas ou Reinos Tradicionais, observando que são necessários mais estudos e registos escritos sobre o significado e a importância dessa manifestação no contexto histórico e cultural das comunidades.
Literatura e conhecimento académico
Por sua vez, o escritor Inocêncio Kuyanga abordou o tema “Tradição Literária e Pensamento Académico em Declínio ou em Ascensão?”, numa reflexão sobre a relação entre a criatividade artística e o conhecimento científico, bem como os pontos de convergência entre a literatura e a academia.
O autor considerou importante promover esse debate no meio académico do Huambo, tendo em conta a presença de numerosos escritores na província e o contributo que podem dar para o desenvolvimento intelectual e cultural da região.
Para Inocêncio Kuyanga, o intercâmbio de ideias entre associações literárias, escritores e instituições académicas pode favorecer a valorização da produção intelectual local e a construção de conhecimentos relevantes tanto no domínio das Letras quanto no da Ciência.
Escrita como forma de preservar a memória
O escritor Leovigildo António considerou que a produção literária no Huambo constitui uma realidade, mas defendeu a necessidade de conferir maior visibilidade às obras publicadas e aos respectivos autores.
O escritor ressaltou que os autores devem continuar a escrever para expressar ideias, sentimentos e experiências, contribuindo para a preservação da memória colectiva, valorização da identidade cultural e para a transmissão de conhecimentos às gerações futuras.
Leovigildo António salientou igualmente que a efeméride representa uma oportunidade para reconhecer o papel dos escritores na reflexão sobre os desafios sociais, políticos e culturais da sociedade, bem como na divulgação dos valores que caracterizam as comunidades.
Apesar do contributo dos autores para o desenvolvimento cultural da província, o escritor reconheceu que o sector literário continua a enfrentar dificuldades, sobretudo no que diz respeito à publicação e distribuição de livros, ao acesso à leitura e à criação de oportunidades para novos escritores, particularmente os jovens.
Neste sentido, o escritor defendeu o reforço dos mecanismos de apoio à produção literária e a criação de condições que permitam a mais autores publicarem as suas obras e alcançarem um público mais vasto.




