O Laboratório Criativo de Música Tradicional do Marçal, situado na Rua dos Balneários, no bairro Marçal, em Luanda, está a desenvolver uma acção de formação em instrumentos musicais tradicionais dirigida às crianças da comunidade, numa iniciativa, segundo o mentor do projecto, que visa preservar, valorizar e divulgar o Património Musical angolano.
Em declarações ao Jornal de Angola, o mestre e pesquisador Jorge Mulumba explicou que a iniciativa procura despertar o interesse das novas gerações pela música de raiz, incentivando a aprendizagem da execução de instrumentos tradicionais e assegurando a continuidade da identidade cultural angolana. Rodeado de muitas crianças e adolescentes, Jorge Mulumba explicou que o projecto pretende igualmente contribuir para o surgimento de novos instrumentistas capazes de interpretar e divulgar os ritmos tradicionais do país. Durante as sessões, detalhou, as crianças têm contacto com instrumentos como a dikanza, puíta, hungu, ngoma e mukindu, para aprender a executar géneros musicais que marcaram a História da música angolana, entre os quais o semba, kazukuta, kilapanga, rumba angolana, xinguilamento e masemba. Além da componente musical, explicou, o programa inclui actividades de leitura, transmissão de valores comunitários e educação cívica, inspiradas nos ensinamentos tradicionais, procurando promover a boa convivência social e prevenir comportamentos de risco entre os mais novos. Continuidade do legado culturalO fundador do Laboratório Criativo de Música Tradicional do Marçal explicou que a criação do espaço surgiu da importância de deixar um legado histórico e cultural do bairro Marçal, considerado um dos principais berços da música tradicional luandense. De acordo com o responsável, o Marçal construiu uma identidade musical própria por meio de grupos como Kituxi, Semba Muxima, Kamba dya Muenho, Kissueya e Babaxi, bem como de músicos de referência que fizeram do bairro a sua casa artística, entre os quais Bonga e Carlos Lamartine. O pesquisador destacou igualmente o percurso do conjunto Os Kiezos, apontado como uma das formações musicais angolanas com maior continuidade artística. Músico de formação familiar e sobrinho de Miguel Francisco dos Santos, artisticamente conhecido como “Mestre Kituxi”, recordou que fundou, em 2002, o grupo tradicional Nguami Maka, e, ao longo dos anos, desenvolveu várias experiências pedagógicas ligadas ao ensino da dikanza e hungu em escolas, instituições culturais e universidades. A divulgação destes instrumentos, frisou, levou-o a representar o país em eventos internacionais, incluindo os Jogos Mundiais de Capoeira, realizados no Brasil, bem como em encontros académicos e residências artísticas em Portugal e na África do Sul, a fim de promover intercâmbios sobre a construção dos instrumentos tradicionais e os ritmos angolanos. “Queremos deixar um legado positivo às novas gerações. A cultura é a forma mais doce de conhecimento e, por via desta, podemos transmitir valores, identidade e cidadania”, afirmou. Crianças no centro da formaçãoPara o responsável do projecto, qualquer iniciativa de preservação cultural deve começar pelas crianças. “Precisamos de cadeiras, bancos, materiais didácticos e recursos para assegurar os lanches das crianças. Todos os dias aparecem mais interessados, mas infelizmente não conseguimos acolher todos”, lamentou. Actualmente, as aulas incluem repertório de clássicos da música angolana, com interpretações de temas marcantes do semba e outros ritmos tradicionais, além de exercícios de percussão exclusivamente com instrumentos tradicionais. O responsável considera que existe interesse por parte da juventude angolana em conhecer e aprender a música tradicional. Na sua opinião, durante muitos anos, verificou-se um afastamento dos jovens em relação às manifestações culturais nacionais, consequência da influência de referências externas e da insuficiente valorização do Património Cultural. Ainda assim, o pesquisador entende que o actual investimento do Executivo no sector Cultural tem contribuído para inverter este cenário, permitindo o surgimento de novas iniciativas dedicadas à preservação da identidade cultural no país. Turismo cultural em crescimentoParalelamente às actividades formativas, o Laboratório Criativo de Música Tradicional do Marçal, garantiu, tem despertado o interesse de visitantes estrangeiros. Recentemente, recordou que o espaço recebeu um grupo de 29 turistas provenientes da Finlândia, que participaram numa experiência de imersão cultural por meio de aulas de percussão tradicional e uma apresentação sobre a História do Semba de raiz e a sua ligação ao Carnaval. Durante a visita, disse, os participantes conheceram instrumentos como ngoma, mukindu, dikanza e puíta, aprofundando o conhecimento sobre a importância na preservação das tradições musicais do país. Desde a abertura do espaço, em Junho de 2025, o Laboratório Criativo de Música Tradicional do Marçal já recebeu mais de 170 visitantes estrangeiros, provenientes de 17 países, afirmando-se como um importante centro de divulgação da música tradicional angolana junto do turismo cultural. O laboratório, acrescentou Jorge Mulumba, recebeu igualmente a visita do investigador brasileiro Bel, estudioso da cultura musical angolana e dos arcos musicais tradicionais. Na ocasião, o investigador ofereceu ao espaço a obra Urucungo de Cassange, resultado de uma investigação realizada no país. O fundador do projecto considerou que a oferta representa um importante contributo para o fortalecimento da investigação, preservação e valorização do Património Musical Nacional.




