“Luanda Cartoon” homenageia mulheres na celebração a vitalidade da arte gráfica

Antes da abertura oficial da exposição, o ambiente no Camões – Centro Cultural Português, em Luanda, era de expectativa. Artistas, convidados e apreciadores da Banda Desenhada percorriam a sala, detendo-se diante das pranchas, comentando técnicas, traços e narrativas, enquanto nos bastidores se cruzavam impressões sobre mais uma edição de um festival que, apesar dos desafios, conseguiu se manter activo durante várias edições.
Entre cumprimentos, fotografias e conversas informais, falava-se sobretudo da capacidade de resistência do “Luanda Cartoon”, que chega, neste ano, à 22.ª edição, consolidado como um dos mais antigos e regulares eventos dedicados à Banda Desenhada e à Animação no país. A presença de artistas nacionais e estrangeiros, bem como a diversidade das obras expostas, reforçava entre os participantes a percepção de que o festival continua a encontrar formas de se renovar. Foi neste ambiente que abriu, na sexta-feira, a exposição “As Mulheres e a Banda Desenhada”, que dá nome à presente edição do Festival Internacional de Banda Desenhada e Animação “Luanda Cartoon”. A mostra, que vai ficar patente até ao dia 31 do mês corrente, presta homenagem às mulheres que têm contribuído para o desenvolvimento e afirmação da arte gráfica, destacando o talento, criatividade e o protagonismo feminino no sector. Ao longo da sala, os visitantes puderam apreciar trabalhos de 54 artistas nacionais e estrangeiros, reunidos numa exposição que propõe uma reflexão sobre o papel das mulheres na criação, desenvolvimento e afirmação da narrativa gráfica contemporânea. O destaque recai sobre as seis mulheres participantes no festival, as brasileiras Marília Marz e Marjorie Yokomizo, as angolanas Isabel de Carvalho Honde “Hondisa”, Fátima Fernandes, Isvânia Morázia e a portuguesa Rita Alfaiate. Entre os convidados, a brasileira Marília Marz, que visita o país pela primeira vez, considerou significativa a participação numa exposição dedicada à valorização das mulheres na Banda Desenhada. A criadora destacou igualmente a importância do intercâmbio proporcionado pelo festival, considerando que a Banda Desenhada permite conhecer diferentes realidades, lugares e formas de expressão. A quadrinista brasileira Marjorie Yokomizo considerou a participação no “Luanda Cartoon” como uma oportunidade de aproximação entre artistas de diferentes realidades culturais. A artista defendeu igualmente a necessidade de levar a Banda Desenhada a novo público, sobretudo às crianças e aos jovens, incentivando-os a descobrir a leitura e a expressão artística através do desenho e das histórias em quadrinhos. Entre as artistas angolanas em destaque, está Isabel de Carvalho Honde, que manifestou satisfação por integrar uma edição dedicada às mulheres. Para a criadora, a homenagem torna a participação mais especial e representa uma oportunidade de dar maior visibilidade ao seu trabalho e aproximá-lo de novos leitores. Isabel de Carvalho Honde defendeu a criação de mais espaços de divulgação para a Banda Desenhada angolana. Festival resistenteEm declarações ao Jornal de Angola, Olindomar de Sousa, responsável do Studio Olindomar, entidade promotora do festival, manifestou satisfação com a realização de mais uma edição, sobretudo por marcar o regresso da homenagem às mulheres. Segundo o responsável, a exposição reúne cerca de 64 pranchas de Banda Desenhada, produzidas por meio de diferentes técnicas, dentre as quais aguarela, acrílico, tinta-da-China e pintura digital, uma das ferramentas actualmente mais utilizadas na produção de Banda Desenhada a nível internacional. A programação inclui também debates, sessões de autógrafos e vendas de livros de Banda Desenhada com artistas nacionais e estrangeiros. Projecto artístico ganha novo públicoEntre os visitantes estava Pedro Cambundo, um dos apreciadores que acompanha o festival desde as primeiras edições. Para o também artista, a iniciativa conseguiu consolidar-se como uma marca no mercado cultural angolano e demonstra uma evolução significativa ao longo dos anos. A actual edição, considerou, apresenta uma inovação importante ao colocar as mulheres no centro da programação, reconhecendo o contributo das criadoras para o desenvolvimento da Banda Desenhada. Outro visitante habitual, Ayrton Cange, mostrou-se igualmente impressionado com a exposição. Para o apreciador, a evolução é visível sobretudo na qualidade visual das obras e na criatividade demonstrada pelos artistas, factores que, na sua opinião, ajudam a explicar a permanência e o crescimento do “Luanda Cartoon”. Mais do que uma exposição, a 22.ª edição deixa, assim, a imagem de um festival que aprendeu a resistir, a se adaptar e a procurar novos caminhos para manter viva a Banda Desenhada em Angola. Entre pranchas, encontros e conversas de bastidores, o “Luanda Cartoon” reafirma-se como espaço de memória, descoberta e diálogo entre gerações e culturas.


