Investigadores culturais das áreas da Linguística, História e Literatura debatem, desde quarta-feira, no Camões - Centro Cultural Português, a dimensão do Património Cultural e Político do antigo Reino do Kongo, no âmbito de um projecto de memória, denominado “A Dikanda do Reino do Kongo” (A Nação do Reino do Kongo), organizado por instituições nacionais e estrangeiras.
O colóquio teve como momento de abertura a comunicação do historiador Patrício Batsîkama, que abordou o tema “Estruturas Políticas, Militares e Filosofia no Antigo Reino do Kongo”, tendo defendido que este vasto reino já possuía civilização e sistema político semelhante à democracia actual, de tal sorte que os agentes administrativos deveriam ter formação na Escola de Administração Pública, denominada “mbôngi”, com o objectivo de proteger a integridade territorial e a sua soberania, assim como dispunha de estruturas militares sofisticadas. Para o prelector, os países onde o reino se estendia podem jubilar de maneira interessante, introduzindo a discussão, com vista a promover a produção interna, com a consciência de que as Nações, com destaque para Angola, território que detém a capital deste histórico Património da Humanidade, devem reforçar o desempenho intercultural como parte na produção de riqueza como alicerce sólida na formação profissional ou universitária. “Convido a navegar sobre a filosofia do antigo Kongo, como uma obra endógena, para depreender as lições do passado poderoso e se inspirar para responder aos desafios actuais e perspectivar o futuro”, apontou. Por último, revelou que existem vários períodos da filosofia no antigo Kongo que espelham a sabedoria africana amplamente ensinada actualmente nas universidades e nos hábitos e costumes dos povos descendentes e as suas diásporas, isenta de qualquer categorização europeia. “Não herdamos apenas nomes filosóficos que chegaram até nós em termos de linhagens, mas, sobretudo, subsídios na tradição oral”, exemplificou. Embora muitos os autores ofereçam uma equivalência aproximada da hierarquia ocidental, o historiador reconhece que a versão endógena kongo que vigorava naquela altura continua a ser um desafio para muitos estudiosos. O pesquisador Petelo Nguinamau Ne-Vata, que falou da “Figura de Kimpa Vita: Profetisa do Reino do Kongo como Símbolo de Resistência Africana”, disse que a influência da força do seu ensino pode ser vislumbrada pelo facto de que a arte religiosa naquele território no século XVIII frequentemente mostra Jesus Cristo como um africano. O professor sublinhou que as tradições que sobrevivem em Mbanza Congo (ex-São Salvador) também atribuem grande importância ao papel de Kimpa Vita. Aprender com a HistóriaO director do Museu Regional do Reino do Kongo, Avelino Muanzeto, referiu que este evento, aberto na secular cidade de Mbanza Kongo, na semana passada, congrega vários elementos deste vasto reino africano antes da conhecida Conferência de Berlim, assumindo ser um espaço rico para partilha de experiência e informações daquilo que é o Património Histórico Cultural do antigo Reino do Kongo. “Esta é uma temática para as actuais e futuras gerações, por esta razão temos vindo a implementar programas que atraiam as pessoas de diferentes idades e locais a conhecer a fundo a grandeza deste reino”, traçou. Por sua vez, a directora do Goethe-Institut Angola, um dos organizadores do evento, o grande propósito residiu no debate de temas que normalmente não são falados fora da academia. Julia Schreiner apontou que a missão do instituto que dirige foi também levantar questões introspectivas, visto que a Conferência de Berlim ocorreu no seu país, para permitir entender o que, de facto, aconteceu. “Passados mais de 130 anos desta conferência, sabemos, hoje, que exerce uma grande influência. Este evento reúne exactamente os vários pontos de vista para aprendermos com a história”, observou. Já Rokiana Ngunza, responsável pela documentação e criação de um arquivo vivo de um website onde vai ser armazenado todas as informações produzidas durante o evento, apontou que a grande intenção é garantir que seja um espaço livre, onde as pessoas possam ter acesso às reflexões que foram levantadas ao longo do projecto para que possam servir de instrumento para a construção desta memória colectiva. Hoje, a partir das 9h45, está agendado no Camões - Centro Cultural Português, as oficinas culturais com o escritores Abreu Paxe, com o tema “Os Provérbios em Kikongo, Multimodalidade, Performance e Oralidade”, “Literatura Infantil”, com a escritora Domingas Monte, e a exposição de livro sobre o Reino do Kongo. Para as 12h00, está programa a sessão de cinema, no Auditório Pepetela do Camões, a exibição do filme “Reino do Kongo - em Busca do Reino Destruído”, do realizando Ne Kunda Nlaba, assim como a oficina cultural “Dyembu Dyetu - Nossa Aldeia”. A primeira fase do projecto, que visa reforçar a investigação científica, preservar a memória e promover a identidade do antigo Reino do Kongo, foi lançada no dia 9 do mês em curso, em Mbanza Kongo, e reserva, para amanhã e sábado, a realização de várias actividades, no Magistério Mutu-ya-Kevela, no encerramento da segunda fase. O projecto é uma iniciativa do Camões – Centro Cultural Português, Goethe-Institut Angola, Casa de Cultura e Artes Ubuntu, Arquivo da Identidade Angolano (AIA), Rádio Nacional de Angola e Teatro VOVA, com o apoio do Ministério da Educação, Governo Provincial do Zaire, Museu Regional do Reino do Kongo e Refriango.




