Economistas falam em manter prudência para conter inflação

Especialistas aplaudem as últimas decisões do Comité de Política Monetária (CPM), mas alertam para a necessidade de prudência na redução das taxas de juro de referência, a fim de garantir a sustentabilidade do crescimento sem comprometer a estabilidade de preços.
Na última reunião do CPM, realizada entre os dias 13 e 14 de Julho, na província de Malanje, o Banco Nacional de Angola (BNA) decidiu reduzir as suas taxas de referência. Com esta decisão, a taxa básica de juro foi fixada em 15,75%, o que representa uma diminuição de 1,25 pontos percentuais. Desde o início do ano, as taxas de referência têm seguido uma trajectória descendente, tendo a taxa BNA passado de 18,5% para os actuais 15,75%, níveis próximos dos verificados antes de 2015, altura em que o país registou uma crise económica e cambial, desencadeada pela forte queda do preço do barril de petróleo no mercado internacional. Por essa razão, o Jornal de Angola procurou saber, junto dos especialistas do mercado, o impacto destas reduções na economia nacional. Segundo o economista Afonso Malaca, a redução das taxas de referência é justificada pelos ganhos observados na trajectória da inflação, que atingiu os 10,11% em Junho, bem como na perspectiva da sua evolução no curto prazo. Para Afonso Malaca, o abrandamento da política monetária era esperado, embora o académico tenha apelado a que esta flexibilidade seja gradual e prudente, evitando cortes demasiadamente rápidos nas taxas de juro de referência para garantir a sustentabilidade do crescimento sem comprometer a estabilidade de preços. Apresentou como proposta a adopção de medidas estratégicas assentes na flexibilização gradual das taxas de juro, na preservação da estabilidade cambial, na canalização de crédito aos sectores produtivos, na coordenação entre as políticas monetária e fiscal, assim como no reforço da supervisão bancária. No entanto, considerou que a economia angolana está a dar sinais de recuperação após um período de fraco crescimento, registando-se um ciclo de crescimento do PIB e um declínio da inflação. Em jeito de conclusão, o economista considerou que, diante da “desaceleração contínua da inflação e estabilidade cambial do kwanza, perspectiva-se que o Banco Central mantenha o ciclo de reduções moderadas das taxas de juro ao longo dos próximos meses. Este cenário macroeconómico será favorável à dinamização do investimento privado, à criação líquida de emprego e a um crescimento económico sustentável, salvaguardando sempre a estabilidade do preço e o poder de compra das famílias”. Já o economista Daniel Tendo, que também recomenda prudência, considerou ainda prematuro assumir uma inflação de 7% em 2027. Para o especialista, a projecção dependerá da consolidação da desinflação, da disciplina fiscal, da estabilidade cambial e, sobretudo, do aumento da produção nacional. Outrossim, sustenta que persistem riscos relevantes, como as incertezas geopolíticas, a volatilidade das commodities e a elevada dependência das importações. “Se estes factores permanecerem controlados e as reformas estruturais avançarem, o objectivo torna-se plausível, mas não garantido”, considerou. Para o economista Mário Munto Ndala, ao baixar a Taxa BNA de 17% para 15,75%, o Comité de Política Monetária enviou ao mercado uma mensagem clara: a inflação está a ceder e há espaço para aliviar o custo do dinheiro, porém, a prudência continua a ser necessária. No seu entender, as decisões podem ter efeitos positivos sobre a economia, sobretudo se contribuírem para reduzir, ainda que de forma gradual, o custo do crédito. Empresas com projectos viáveis, mas travadas por juros elevados, podem encontrar algum fôlego adicional. Famílias e pequenos negócios também poderão beneficiar, caso os bancos comerciais transmitam esta redução às suas próprias taxas. “Em termos técnicos, a decisão parece acertada. O BNA aproveitou a melhoria da inflação para aliviar a política monetária sem comprometer a sua credibilidade”, concluiu.



