Luanda – A 131.ª reunião do Comité de Política Monetária (CPM) do Banco Nacional de Angola (BNA) realiza-se num contexto favorável pela continuidade da desaceleração da inflação, melhoria das perspectivas de crescimento económico e preservação da estabilidade cambial e financeira.
Luanda – A 131.ª reunião do Comité de Política Monetária (CPM) do Banco Nacional de Angola (BNA) realiza-se num contexto favorável pela continuidade da desaceleração da inflação, melhoria das perspectivas de crescimento económico e preservação da estabilidade cambial e financeira.
A questão central que se coloca ao banco central já não parece ser se existe espaço para iniciar um processo de flexibilização monetária. Esse processo começou na reunião anterior, quando a instituição reduziu a Taxa BNA de 17% para 15,75%, numa diminuição de 1,25%.
A discussão que se apresenta agora é diferente: qual deve ser a velocidade adequada da redução das taxas de juro sem colocar em risco os ganhos alcançados na estabilidade de preços?
Este equilíbrio deverá estar no centro das atenções da 131.ª reunião, que iniciou segunda-feira e encerra esta terça-feira, em Luanda.
Inflação abre espaço para novo corte
O principal argumento a favor de uma nova redução das taxas de juro encontra-se no comportamento da inflação. A inflação homóloga desacelerou para 8,78% em Agosto, prolongando a trajectória descendente observada nos últimos meses.
O indicador ganha ainda maior relevância quando comparado com a previsão do próprio BNA, que em Julho reviu em baixa a previsão de inflação para o final de 2026, para 8,6%. Na mesma revisão, o banco central elevou a previsão de crescimento económico para 3,6%.
Ou seja, a economia angolana aproxima-se simultaneamente de duas condições desejáveis para uma política monetária menos restritiva: inflação mais baixa e crescimento económico positivo.
Esta combinação permite ao BNA começar a reduzir o grau de restritividade da política monetária sem necessariamente recorrer a uma política expansionista. Contudo, a aproximação da inflação à previsão anual não significa que todos os riscos estejam eliminados.
Prudência
A principal razão para alguma cautela está no facto de a política monetária actuar com desfasamentos, ou seja, uma redução da Taxa BNA hoje não produz imediatamente todo o seu efeito sobre o crédito, consumo, investimento, a liquidez bancária e, posteriormente, sobre os preços.
Por isso, uma decisão excessivamente agressiva poderia gerar uma situação em que a inflação continuasse a cair no curto prazo, mas voltasse a acelerar posteriormente devido ao aumento da procura, à expansão da liquidez ou à pressões cambiais.
É precisamente neste ponto que a política monetária exige maior sofisticação. Uma inflação de 8,78% permite cortar juros, não significando, por si só, que seja necessário cortar juros de forma agressiva.
Kwanza indicador importante
Se a inflação constitui o principal argumento a favor de uma redução da Taxa BNA, o comportamento do kwanza constitui provavelmente um dos principais argumentos para a prudência.
A estabilidade cambial tem sido fundamental para a redução das pressões inflacionistas em Angola, particularmente porque uma parte significativa dos bens consumidos internamente depende, directa ou indirectamente, de produtos importados.
Uma desvalorização significativa da moeda nacional pode aumentar os custos dos produtos importados e, através dos chamados efeitos de segunda ordem, voltar a pressionar os preços internos.
Assim, o CPM terá de avaliar não apenas a inflação observada, mas também a possibilidade de a redução das taxas de juro alterar as expectativas dos agentes económicos relativamente ao kwanza.
Neste aspecto, o espaço para redução dos juros existe, mas não é ilimitado. O crescimento económico permite maior conforto e, do lado da actividade económica, o cenário também é mais favorável.
A revisão da previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 3,6% em 2026 oferece ao BNA alguma margem para conduzir uma política monetária gradualmente menos restritiva, sem a necessidade de um estímulo abrupto.
Este aspecto é particularmente importante porque taxas de juro elevadas durante períodos prolongados podem aumentar o custo de financiamento das empresas, limitar o crédito ao sector privado e reduzir a capacidade de investimento. Uma redução gradual das taxas poderá, portanto, contribuir para melhorar as condições de financiamento da economia.
Contudo, existe aqui uma distinção importante: baixar juros não significa automaticamente aumentar o crédito à economia.
A transmissão da política monetária dependerá também da liquidez disponível nos bancos, do risco de crédito, da capacidade de pagamento das empresas e famílias e das condições de concessão de financiamento.
Uma das questões que merece maior atenção depois da decisão do CPM é saber se a redução da Taxa BNA será efectivamente transmitida às taxas activas praticadas pelos bancos.
Se a Taxa BNA cair, mas o custo dos empréstimos continuar elevado, o impacto da política monetária sobre o investimento e a actividade económica será limitado.
Por outro lado, se a redução for rapidamente transmitida aos créditos bancários, poderá ocorrer uma aceleração da procura por financiamento. É neste equilíbrio que se encontra uma das maiores dificuldades do actual ciclo.
O BNA precisa de criar condições para que o dinheiro fique menos caro, mas sem provocar uma expansão excessiva da procura que possa comprometer a trajectória de desinflação.
Cenários
Neste contexto, podem ser considerados três cenários principais.
Primeiro pende-se com a manutenção da Taxa BNA em 15,75%. Esta seria a opção mais conservadora. O BNA poderia justificar a decisão com a necessidade de avaliar os efeitos do corte efectuado em Julho e confirmar se a desaceleração da inflação é sustentável.
Neste caso, a manutenção dos juros não significaria necessariamente uma interrupção do ciclo de flexibilização, podendo representar apenas uma pausa para avaliação.
Segundo cenário é a redução moderada, por exemplo, de 0,50 ponto percentual.Este parece ser o cenário que melhor conciliaria os diferentes objectivos da política monetária.
A Taxa BNA passaria para 15,25%, sinalizando continuidade do processo de flexibilização, mas sem repetir a magnitude do corte de Julho.
Seria uma mensagem de confiança na trajectória da inflação, acompanhada por prudência relativamente ao câmbio e à liquidez. O terceiro cenário possível seria a redução mais expressiva, para 15% ou abaixo.
Esta opção transmitiria uma mensagem mais forte de confiança do BNA na consolidação da desinflação.
Poderia beneficiar o custo do financiamento e reforçar as expectativas de recuperação do crédito, mas aumentaria igualmente a necessidade de monitorização do mercado cambial, da liquidez e das expectativas de inflação.
Comunicação
Mais importante do que a dimensão exacta do eventual corte será, em alguns aspectos, a linguagem utilizada pelo CPM. Se o BNA indicar que a actual trajectória da inflação permite continuar a reduzir gradualmente as taxas de juro, os agentes económicos poderão interpretar a reunião como o início de um ciclo prolongado de flexibilização monetária.
Nesse cenário, a 131.ª reunião poderá ser vista não apenas como uma decisão sobre a Taxa BNA, mas como uma confirmação da mudança de orientação da política monetária.
Por outro lado, se o banco central enfatizar os riscos cambiais, a liquidez e as incertezas externas, uma eventual redução poderá ser interpretada como uma decisão pontual, e não como garantia de novos cortes.
Impacto sobre bancos e mercado de capitais
A decisão terá também implicações para o sistema financeiro.Taxas de juro mais baixas tendem, em princípio, a reduzir o custo de financiamento e podem estimular a procura de crédito.
Para os bancos, porém, uma redução das taxas pode pressionar as margens financeiras, sobretudo se as taxas dos activos ajustarem mais rapidamente do que as dos passivos.
No mercado de capitais, a descida das taxas pode igualmente aumentar a atractividade relativa das acções, dependendo da evolução dos resultados das empresas e das expectativas dos investidores.
Num mercado como o angolano, que tem registado maior dinamismo na negociação de acções na BODIVA, a política monetária poderá tornar-se progressivamente mais relevante para as decisões de alocação de capital entre depósitos, títulos e instrumentos de rendimento variável.
Uma nova fase da política monetária
A 131.ª reunião acontece, assim, num momento que pode marcar uma nova fase da política monetária angolana.
Depois de vários anos de forte preocupação com a inflação, o BNA encontra-se perante uma situação diferente: a inflação aproxima-se dos níveis desejados, enquanto a economia mantém perspectivas de crescimento.
O desafio passa agora de combater a inflação a qualquer custo para calibrar cuidadosamente o grau de restritividade monetária.
Esta mudança exige uma política mais fina, baseada não apenas na inflação corrente, mas também nas expectativas, no câmbio, na liquidez, no crédito, nas reservas internacionais e na evolução da actividade económica.ACC/DC




