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Quando João Lourenço tomou posse, em 2017, uma das suas primeiras deslocações ao exterior foi à China. A viagem tinha como propósito claro a obtenção de um novo grande empréstimo que permitisse aliviar a tesouraria angolana e relançar a economia num momento de crise profunda. O pedido inicial rondava os 11 mil milhões de dólares, um valor que, na altura, parecia possível, dada a longa história de financiamento chinês à reconstrução no pós‑guerra. Pequim não correspondeu às expectativas. Depois de sucessivos adiamentos, Lourenço regressou com apenas cerca de 2 mil milhões, destinados sobretudo a reestruturar e pagar dívidas antigas.
O sinal político foi inequívoco, demonstrando que a China já não estava disposta a repetir o modelo de crédito fácil que sustentara o consulado de José Eduardo dos Santos, em que a China a suportara financeiramente o governo em tempos de crises graves (2009 e 2016) com empréstimos bilionários.
A relação começou a deteriorar‑se de forma silenciosa. A última grande oportunidade de reaproximação teria sido a participação de João Lourenço no Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), em Setembro de 2024, mas a viagem foi cancelada à última hora. Em Pequim, o gesto foi interpretado como desinteresse e até desconsideração, deixando os chineses agastados. Para um parceiro que valoriza profundamente a ritualização diplomática e a previsibilidade, o cancelamento à última hora foi um sintoma de que Angola já não orbitava com a mesma intensidade no eixo sino‑africano.
Os números ajudam a explicar a mudança. Em 2017, a dívida pública angolana à China representava uma fatia colossal do endividamento externo do país, cerca de 21,4 mil milhões de dólares. Hoje, essa dívida desceu de forma acentuada, situando‑se em 8,9 mil milhões de dólares, fruto de pagamentos agressivos e da ausência de novos grandes financiamentos.
O que isto revela é simples: João Lourenço e a China não se entenderam. O presidente angolano manifestou um descontentamento profundo com o modelo chinês de financiamento, que considerava opaco, desequilibrado e excessivamente dependente do petróleo como garantia.
Em simultâneo, Lourenço iniciou uma aproximação aos Estados Unidos, apostando numa diversificação estratégica que muitos interpretaram como o fim da relação privilegiada entre Angola e a China.
Mas essa leitura era precipitada. A China nunca saiu de Angola, nem podia sair. Está demasiado implantada na economia real, nos investimentos estruturantes e, sobretudo, na própria elite do MPLA.
Ao contrário de outros parceiros internacionais, Pequim construiu uma presença que não depende apenas de governos, mas de redes de influência, negócios, quadros técnicos, empresas e ligações pessoais que atravessam o aparelho político angolano. E, fiel à sua tradição de paciência milenar, limita‑se a esperar que João Lourenço saia de cena.
A China ficou à espera, observando, avaliando e mantendo canais abertos com os potenciais sucessores.
Agora, são os próprios angolanos que começam a mover‑se.
O tiro ribombante de partida foi dado por Manuel Vicente, antigo vice‑presidente da República e um dos homens mais influentes da elite económica do MPLA do tempo de José Eduardo dos Santos. Vicente reapareceu publicamente numa entrevista em que elogiou a China e culpou os angolanos pelos aspectos negativos da relação anterior.
O gesto não é inocente. Vicente conhece profundamente os mecanismos da cooperação sino‑angolana – aliás, foi um dos principais responsáveis pela presença da China em Angola – e mantém relações antigas com empresas e decisores chineses. Ao mesmo tempo, aparenta apoiar Carlos Feijó, outro nome com experiência directa nos negócios da China, dos tempos em que também era um dos homens fortes do governo.
Este duplo movimento é o símbolo de uma reaproximação das elites do MPLA a Pequim e da configuração das apostas presidenciais angolanas no apoio chinês, relevante para qualquer relançamento efectivo da economia após 2027.
A procissão sinófila ganhou força com a visita de Adão de Almeida – um dos candidatos mais bem posicionados à sucessão presidencial – à China. Lá, elogiou o modelo chinês de fiscalização parlamentar e participou em eventos oficiais, além de aproveitar a oportunidade para uma fotografia de campanha ao jogar basquetebol de gravata…
A mensagem é óbvia: as elites do MPLA estão a reposicionar‑se para o pós‑2027, e a China é parte central desse reposicionamento. É bem possível que a romaria de aspirantes a candidatos presidenciais à China se intensifique, bem como as visitas de ou a Zhang Bin, o dinâmico embaixador chinês em Luanda.
Este movimento não resulta apenas de afinidades políticas ou de nostalgia pelos tempos do crédito fácil. Resulta também de uma avaliação pragmática da conjuntura internacional.
Os Estados Unidos, sobretudo sob a política errática de Donald Trump, não oferecem a previsibilidade que muitos dirigentes angolanos esperavam. A relação com Washington trouxe visibilidade, trouxe o projecto do Corredor do Lobito e apresentou uma narrativa de parceria estratégica. Mas não concretizou o tipo de apoio financeiro ou político que alguns membros do MPLA imaginavam. E, com a oscilação permanente da política externa norte‑americana, muitos concluíram que não há tanto a esperar dos EUA como se pensava – e como se esperou durante a administração Biden.
A China, pelo contrário, mantém uma estratégia coerente e de longo prazo. Está implantada, está interessada e está a reforçar a sua presença regional com movimentos que vão muito além de Angola. Pequim aposta numa influência de estilo gramsciano: não apenas finança, mas cultura, educação, formação técnica, intercâmbio académico, presença empresarial e construção de um ecossistema social que molda percepções e preferências. É uma estratégia que não precisa de pressa, nem de visibilidade, mas sim de consistência e paciência.
O MPLA percebeu isso. Assim, enquanto João Lourenço termina o seu ciclo político – e a eleição com 100% (ou quase) para presidente do partido em Dezembro, não altera o fim do seu poder efectivo –, as elites angolanas começam a preparar o próximo capítulo da relação com a China. Não será uma repetição do passado, o que é impossível com Xi Jinping, mas também não será um afastamento. Será, como sempre, uma negociação de poder, interesses e sobrevivência política, em que a China, muito provavelmente, poderá voltar a ocupar o papel central na estrutura de poder político em Angola, sobretudo se as distracções americanas trumpistas se mantiverem.
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