O embaixador de Angola na Etiópia e representante permanente junto da União Africana (UA), Miguel Bembe, defendeu que África deve priorizar os mecanismos continentais e as soluções locais. Para o diplomata, os próprios africanos são quem melhor compreende a realidade política, económica e social do continente.
O diplomata falava durante a aula magna sobre o tema “Diplomacia e Segurança Nacional”, que encerrou o primeiro curso focado no Papel da Diplomacia de Defesa dos Estados, uma iniciativa promovida pelo Instituto de Defesa Nacional.
Miguel Bembe afirmou que Angola deve manter-se sempre disponível para participar em iniciativas de diálogo, mediação e resolução de conflitos, sobretudo quando os interesses estratégicos da região e do país estiverem em causa.
Ao analisar a expansão das crises geopolíticas, o embaixador alertou que esta realidade exige uma atenção permanente dos Estados. Miguel Bembe explicou que a proximidade geográfica já não se mede apenas pelas fronteiras jurídicas, uma vez que acontecimentos registados numa região podem produzir impactos directos em qualquer outra parte do mundo.
“A geografia não é uma fronteira jurídica que nos torne imunes às consequências”, afirmou o representante permanente de Angola junto da União Africana. O diplomata sublinhou que os ciberataques e outros fenómenos transnacionais ignoram limites físicos, podendo afectar gravemente países distantes.
O diplomata alertou ainda que os reflexos dos conflitos internacionais atingem directamente as economias nacionais, com maior gravidade nos países que não possuem uma base de produção diversificada. “Se não temos uma economia diversificada, vamos sofrer o impacto no preço dos produtos. Vamos sentir directamente no prato, em nossa casa”, sublinhou.
Miguel Bembe sublinhou que os Estados precisam de estruturas de análise estratégica aptas a monitorizar permanentemente o cenário internacional, avaliar riscos e propor medidas de prevenção eficazes.
Pensamento estratégico
O também embaixador na Etiópia ressaltou a necessidade de Angola reforçar a sua capacidade de pensamento estratégico, através da formação e valorização de quadros especializados nas áreas da diplomacia, defesa e segurança.
Os líderes nacionais, prosseguiu o embaixador, precisam de contar com assessorias capazes de produzir análises aprofundadas e fornecer informação estratégica antes da tomada de decisões.
“Precisamos de mudar a nossa doutrina e a forma de fazer as coisas”, defendeu, considerando que o país dispõe de quadros altamente qualificados nas áreas diplomática e militar, mas deve aproveitar melhor esse conhecimento.
O diplomata alertou, porém, que não basta dispor de estruturas e profissionais qualificados. Para Miguel Bembe, é fundamental consolidar uma cultura de trabalho focada na antecipação de cenários e no planeamento estratégico.
Embaixador ressalta papel de Angola na União Africana
Ao abordar o papel de Angola na União Africana, o diplomata destacou a participação do país em diferentes processos relacionados com a paz, segurança e governação continental.
Miguel Bembe Miguel Bembe recordou que Angola tem acolhido importantes reuniões da organização, incluindo debates sobre segurança e política marítima.
Para o representante permanente, acolher estas discussões constitui uma oportunidade estratégica para o país exercer influência e defender os seus interesses.
Segundo explicou, esta projecção exige uma preparação rigorosa dos quadros nacionais para que compreendam o impacto de cada matéria no sistema estratégico do Estado.
Mecanismos de paz e resolução de conflitos
O diplomata destacou, igualmente, a realização em Luanda de uma Sessão Extraordinária do Conselho Executivo da União Africana, a nível de ministros. Este encontro vai servir para preparar a Cimeira Extraordinária de Chefes de Estado e de Governo da organização, agendada para os dias 29 e 30 deste mês de Agosto, na capital angolana.
Sob a liderança da diplomacia de Angola, o evento vai ter como foco o reforço político e o financiamento dos mecanismos de prevenção e resolução de conflitos em África.




