A prevenção e a resolução de conflitos associados à escassez de água em África podem encontrar solução na união entre a vontade política e a capacidade técnica dos países do continente. O apelo foi feito, quinta-feira, em Luanda, pelo Presidente da República, João Lourenço, que defendeu uma governação mais justa dos recursos hídricos.
Ao discursar na abertura da 4.ª edição da Bienal de Luanda – Fórum Pan-Africano para a Cultura de Paz e Não-Violência, o Estadista angolano considerou imperioso que as tensões em torno deste recurso sejam tratadas numa perspectiva de soluções políticas e diplomáticas, com recurso à cooperação regional e ao respeito pelos compromissos internacionais.
“É, por isso, imperioso que encaremos as tensões e os conflitos à volta da água em África numa perspectiva centrada na busca de soluções políticas e diplomáticas”, afirmou João Lourenço, ao lançar um apelo aos Chefes de Estado, líderes comunitários, jovens e cidadãos africanos para a construção de mecanismos que garantam o acesso equitativo à água.
Apesar de o continente possuir algumas das maiores bacias hidrográficas e aquíferos do Planeta, o Presidente da República sublinhou que milhões de cidadãos enfrentam ainda assim, diariamente, a escassez deste recurso que considerou essencial à vida, à saúde, à agricultura, à pecuária e à indústria.
Neste contexto, o Estadista angolano sugeriu a operacionalização dos comités e das comissões de gestão transfronteiriça das bacias hidrográficas, por constituírem mecanismos que podem reforçar a confiança entre os Estados e contribuir para a diplomacia preventiva.
Ao apresentar a experiência nacional no combate à escassez de água, o Presidente da República destacou os resultados do Programa de Combate aos Efeitos da Seca no Sul de Angola (PCESSA), com realce para o sistema de transferência de água do Cafu, a partir do rio Cunene, e das barragens do Ndue e do Calucuve, com os respectivos canais adutores.
Estas infra-estruturas, prosseguiu o Chefe de Estado, estão a contribuir para transformar zonas áridas em áreas com melhores condições para a produção agrícola e a criação de animais, além de reduzirem as disputas pelo acesso à água e às pastagens.
“Eliminámos factores de tensão e de conflito em torno da água, pois a busca por pastagens e por este bem precioso gera uma disputa permanente pela sobrevivência, fluxos migratórios forçados e desordenados, que pressionam os centros urbanos e ultrapassam fronteiras soberanas”, salientou.
Ainda sobre os investimentos do Executivo angolano no sector das Águas, o Presidente da República mencionou o sistema de água Quilonga Grande, cuja inauguração está prevista para Dezembro, e o Bita, com a previsão de entrar em serviço em meados do próximo ano.
O Presidente da República disse que a experiência angolana pode servir de referência para outros países africanos que enfrentam problemas semelhantes, tendo em conta a necessidade de adoptar soluções sustentáveis para a gestão dos recursos hídricos.
O Estadista angolano lembrou que a gestão responsável dos recursos hídricos pode produzir benefícios económicos e sociais e garantir a dignidade humana.
Defendido o talento jovem em soluções tecnológicas
O papel da juventude e das mulheres na promoção da paz, da prevenção de conflitos e da gestão sustentável da água mereceu, também, destaque na intervenção do Presidente da República.
Ao saudar os 12 jovens líderes representantes das cinco regiões de África, os activistas e os embaixadores da juventude africana para a paz, João Lourenço ressaltou que o diálogo entre gerações constitui uma oportunidade para aproximar a experiência dos mais velhos da criatividade e da capacidade de inovação dos jovens. Sobre este quesito, o Chefe de Estado defendeu o aproveitamento do talento juvenil para o desenvolvimento de soluções tecnológicas nos domínios da água e do saneamento, assim como para iniciativas comunitárias de mediação e diplomacia preventiva.
João Lourenço aproveitou o momento para render homenagem à mulher africana, pelo papel que desempenha na gestão quotidiana da água, na protecção dos ecossistemas e na organização das comunidades rurais. “A sua liderança tem de estar presente na mesa da tomada de decisões, no planeamento hídrico e nos mecanismos de prevenção de conflitos”, atestou.
João Lourenço manifestou a expectativa de que as reflexões da Bienal contribuam para a elaboração de um Pacto Continental sobre a Governação da Água e para a definição de um Roteiro de Acções Concretas, com impacto duradouro na vida das populações africanas.




