A proposta da UNITA de destinar 10% das receitas provenientes do petróleo, gás e minerais estratégicos ao financiamento de iniciativas destinadas à juventude angolana está a dividir opiniões entre analistas, que apresentam posições distintas sobre a sua viabilidade, o impacto social e o enquadramento político, numa altura em que o país se prepara para as eleições gerais de 2027.
A iniciativa, apresentada pelo presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, prevê a criação de uma “Conta Jovem Soberana”, destinada a cidadãos dos 18 aos 35 anos, com recursos orientados para áreas como educação, saúde, habitação, formação profissional e empreendedorismo.
O jurista Carlos Cabaça considera que a proposta surge num contexto de preparação eleitoral e entende que os pronunciamentos dos líderes políticos, nesta fase, já reflectem o início da pré-campanha para as eleições de 2027.
Embora reconheça mérito na ideia, o jurista questiona a capacidade dos 10% das receitas petrolíferas para responder aos principais problemas da juventude, considerando que a medida, por si só, não será suficiente para resolver os desafios que afectam este segmento da população.
“A ideia como tal é boa, mas, atendendo ao momento, estamos à porta das eleições de 2027, infelizmente vai significar apenas o início da pré-campanha”, afirmou Carlos Cabaça.
Em sentido diferente, o líder da JFNLA, Carlos Cassoma, considera que a proposta faz sentido perante as dificuldades que persistem na implementação das políticas públicas dirigidas à juventude.
O político apontou o desemprego como um dos principais problemas que afectam os jovens angolanos e associou a procura de melhores condições de vida no estrangeiro às insuficiências das respostas governamentais.
“Basta olharmos para o número de jovens que abandonam o país para emigrar e procurar melhores soluções noutros países. É assustador. Reflecte a incapacidade do Governo em matéria de desemprego”, afirmou.
Já o economista José Macuva entende que a proposta de Adalberto Costa Júnior contribui para reanimar o debate ideológico na política angolana, ao colocar em discussão o papel do Estado na distribuição da riqueza nacional e na satisfação das necessidades dos cidadãos.
Na sua análise, existem semelhanças entre os modelos económicos defendidos pela UNITA e pelo MPLA, sobretudo no papel atribuído ao Estado na gestão da vida económica e social.
José Macuva classificou essa abordagem como “socialismo paternalista”, por considerar que ambos os partidos defendem um modelo em que o Estado assume uma responsabilidade central na resposta às necessidades da população.
As diferentes posições evidenciam que a proposta ultrapassa a discussão sobre a percentagem das receitas dos recursos naturais a canalizar para os jovens, colocando também em debate a eficácia das políticas públicas, a criação de oportunidades económicas e as prioridades dos partidos políticos antes das eleições de 2027.
A concretização da iniciativa dependerá, caso avance, da definição do enquadramento legal, dos critérios de acesso, do modelo de gestão e dos mecanismos de fiscalização dos recursos, aspectos que serão determinantes para avaliar a sua viabilidade e o alcance dos benefícios previstos.




