Os milhares de fiéis católicos que ontem assistiram à última homilia da peregrinação ao Santuário da Mamã Muxima, no município da Quiçama, foram exortados pelo arcebispo de Luanda a tornarem-se verdadeiros símbolos de mudança nas suas respectivas comunidades.
Dom Filomeno do Nascimento Vieira Dias lembrou aos crentes que a peregrinação cristã transcende a simples deslocação física de um lugar para o outro. “A peregrinação é uma experiência espiritual profunda que convida os cristãos à transformação interior”, sublinhou o prelado.
O percurso percorrido desde as diversas dioceses até ao Santuário, referiu o arcebispo, deve ser encarado como um reflexo da busca constante pela melhoria da própria vida cristã. “Temos aqui presentes fiéis de Benguela, Cabinda, Sumbe, Luanda e de tantas outras regiões que, mesmo no anonimato, foram chamados a confiar e a caminhar uns com os outros, superando as dificuldades com esperança”, frisou.
A romaria ao Santuário, destacou, deve ser sempre vivida como uma experiência colectiva de fé, oração, comunhão e esperança, para a qual toda a Igreja é convocada. “É preciso reconhecer que a fé não é uma realidade imóvel. O discípulo de Jesus está sempre a caminho, ciente de que haverá momentos de alegria e de cansaço, assim como tempos de consolação e de provações”, disse.
Asseguramento positivo
O porta-voz do Comando Provincial do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros do Icolo e Bengo informou que a instituição conseguiu efectuar um asseguramento positivo durante os quatro dias da peregrinação, apesar de se terem registado 677 ocorrências, a maioria ligada a assistência e encaminhamentos hospitalares.
Joasir Piedade referiu, na apresentação dos dados do pré-balanço, que se registou também um princípio de incêndio, rapidamente controlado, e a realização de um resgate na orla fluvial. “Durante os quatro dias, trabalhámos com mais de 150 efectivos e recorremos a meios operacionais como lanchas e ambulâncias para fazer o patrulhamento preventivo de toda a área”, adiantou o oficial.
O responsável destacou que o sucesso da operação se deveu ao rigoroso cordão de segurança montado no perímetro do Santuário. “O nosso compromisso continua. As nossas equipas vão manter-se posicionadas e só abandonaremos o espaço amanhã”, concluiu.
Assistência médica
Os técnicos do Instituto Nacional de Emergências Médicas de Angola (INEMA) assistiram, durante os quatro dias, 580 pacientes, entre os quais 20 do fórum psicológico e sete ligados a traumas, de acordo com o responsável da instituição, Manuel Francisco. As patologias predominantes, disse, foram cefaleias com 106 casos, dores abdominais, com 102 ocorrências, hipertensão (44) e doenças diarreicas agudas (30). “Foi um trabalho muito difícil,pela moldura humana recebida, mas os técnicos conseguiram acudir todos os casos imediatos”, salientou.
Mais de mil efectivos
O porta-voz da Polícia Nacional na província do Icolo e Bengo, Euler Matari, disse que mais de 1.200 efectivos asseguraram, este ano, a romaria à Muxima.
Em relação às ocorrências, disse, foi registado um acidente de viação, na sexta-feira, por volta das 17h30, na ponte 17 de Setembro, na localidade da Tandala, mas sem registos de feridos ou mortes, apenas danos materiais.
No sábado, continuou, houve o registo de um furto de dois telemóveis. “Essas são as únicas ocorrências registadas”, avançou, além de frisar que vão continuar a fazer um trabalho de sensibilização profundo no âmbito da prevenção contra sinistralidade rodoviária, ao longo das Estradas Nacionais 110, a Sul e a Norte, assim como na 100, que compreende o Cabo Ledo e na 230, no troço até à via Fidel Castro Ruz.
Nova designação
Orecinto que acolhe milhares de fiéis durante as celebrações eucarísticas da peregrinação anual de Nossa Senhora da Conceição, na Vila da Muxima, passa oficialmente a designar-se Praça de Nossa Senhora da Muxima.
O anúncio foi feito no último sábado pelo bispo da Diocese de Viana, Dom Emílio Sumbelelo.O prelado declarou que o novo altar da Basílica da Muxima foi baptizado em honra da bem-aventurada Virgem Maria.
A nova denominação foi apresentada perante uma multidão de devotos que participavam na celebração, marcando um dos momentos de maior simbolismo e significado espiritual desta edição da peregrinação.
A proclamação litúrgica ocorreu na presença do arcebispo de Luanda, Dom Filomeno Vieira Dias. Logo de seguida, o espaço — que ainda se encontra em obras no âmbito do plano de requalificação do Santuário — recebeu a bênção solene, cumprindo todos os ritos e padrões canónicos da Igreja Católica.
Dom Emílio Sumbelelo destacou que a praça e a esplanada são símbolos de profunda importância para a comunidade cristã, cujos nomes devem ser amplamente partilhados para promover o património religioso nacional.
O bispo recordou, com especial emoção, que o local se reveste de um valor histórico único, tendo recebido em Abril a visita oficial de Sua Santidade, o Papa Leão XIV. A praça e o altar integram o amplo projecto de modernização e requalificação da Basílica da Muxima, projectada para se consolidar como um dos maiores e mais importantes centros de espiritualidade do continente africano.
Imagem recebida com euforia
A réplica em miniatura da imagem de Nossa Senhora da Conceição da Muxima foi recebida, no sábado, no palco principal do Santuário da Muxima, sob um manto de cânticos, orações e um espectáculo de fogo de artifício.
Proveniente de Luanda, a imagem foi transportada numa procissão fluvial pelo rio Kwanza, percorrendo um trajecto de mais de 60 quilómetros. A sua chegada, que marcou o terceiro e penúltimo dia da peregrinação anual, foi saudada em clima de grande euforia e devoção pelos milhares de fiéis que enchiam o recinto.
Antes de alcançar o destino final, a réplica fez uma breve paragem na Igreja de Santa Teresa de Jesus, na aldeia da Cabala, comuna de Caculo Cahango (Icolo e Bengo), prosseguindo depois viagem até à Vila da Muxima.Sob forte escolta da comunidade católica e das Forças de Defesa e Segurança, a imagem percorreu os corredores centrais do Santuário, permitindo que os peregrinos se aproximassem e a contemplassem de perto. Após ser colocada no altar principal, seguiu-se um momento de profunda adoração, durante o qual os devotos, empunhando velas acesas, elevaram as suas preces e súplicas à Mamã Muxima.
A iniciativa, integrada no programa oficial do evento, permitiu que a imagem peregrinasse previamente por diversas paróquias da região.
Líderes políticos destacam impacto da romaria para a paz
O secretário do MPLA para a Organização e Inserção na Sociedade, Gonçalves Muandumba, destacou ontem, na Muxima, que a peregrinação é uma prova inequívoca da importância e do papel que a Igreja desempenha na vida das populações.
“Esta romaria representa a unidade e a paz”, justificou, enaltecendo a moldura humana significativamente expressiva registada este ano.
Para o político, o projecto de requalificação da Basílica da Muxima vai transformar a região numa referência de destaque, não apenas do ponto de vista religioso, mas também no sector do turismo de cariz internacional. “A Basílica é um espaço de conforto espiritual que vai reforçar a fé e a resiliência dos angolanos”, afirmou. Gonçalves Muandumba frisou ainda que a caminhada é uma demonstração de sacrifício, esperança e renovação do amor ao próximo: “A homilia de Dom Filomeno Vieira Dias foca-se na reconciliação e na importância de mantermos viva a esperança”.
Por sua vez, o presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, considerou que a elevada afluência de fiéis testemunha a profunda veneração à Virgem Maria e serve de inspiração para a consolidação da paz e da unidade entre os angolanos. “Enfrentamos muitos desafios e é sempre proveitoso estarmos presentes numa celebração como esta, onde podemos estar juntos e renovar a fé na esperança de construirmos uma Angola melhor”, frisou.
Para o líder partidário, numa fase em que o país caminha para o horizonte de um novo ano eleitoral, é fundamental que o incentivo à estabilidade social e institucional seja uma realidade presente em todos os cidadãos. O deputado lembrou que os períodos de sufrágio são, historicamente, associados a receios por parte da população, defendendo que a mensagem do Santuário deve servir para contrapor esse sentimento.
Manuela Mateus e Roque Silva | Muxima




