Na última conversa, tomámos a“Aventura Ambígua”,romance de Cheikh Hamidou Kane ((1928-2026), como pretexto para abordar os problemas da fortuna crítica e formação do cânone nas literaturas africanas. Quanto a nós, tais problemas associam-se a um certo paternalismo dominante nos círculos académicos ocidentais. Por exemplo, a métrica canónica do crítico literário norte-americano Bernth Lindfors,por força da tendencial universalização dos seus padrões, representa um tipo de monopólio que se verifica no campo da interpretação e avaliação das literaturas africanas no espaço académico dos Estados Unidos da América.Uma das mais expressivas ilustrações dessa presunção de monopólio foram as controvérsias geradas por um artigo, “A Source for Arrow of God”, do professor e crítico literário nigeriano Charles Nnolim(1935-2025). Ele desencadeou um debate acerca das fontes do romance de Chinua Achebe (1930–2013). O que nunca tinha sido feito até aí. As reacções de alguns críticos britânicos e norte-americanos faziam prova de seis problemas que eram transferidos para a crítica literária africana: 1) paternalismo epistémico; 2) ignorância epistémica;3) monopólio do mercado da interpretação; 4) consagração assimétrica de uma legitimidade externa; 5) imposiçãode um cânone literário africano exógeno;6) aplicação do critério da objectividade.
Duas fortunas críticas
Na década de 90 do século XX, o autor destas linhas dedicava parte do seu tempo à divulgação de autores africanos e obras traduzidas das literaturas africanas de língua inglesa e língua francesa que circulavam em Angola.
O entusiasmo era intenso. Surgiam oportunidades de participação em eventos científicos que propunham debates sobre tais literaturas, enquanto objectos de estudo. Nessa altura, participámossem colóquios da Associação para o Estudo das Literaturas Africanas com sede em França e da Associação para o Estudo das Literaturas Africanas com sede nos Estados Unidos da América. São duas organizações profissionais de especialistas em estudos literários africanos dos referidos países.
Os seus campos de estudos compreendiam um largo espectro. Geralmente a maioria dos seus membros ocupavam-se apenas das obras traduzidas e obras originais das literaturas africanas em línguas oficiais de ensino nesses países, designadamente o inglês e o francês. As comunidades minoritárias eram constituídas por professores de outras literaturas africanas, designadamente em línguas africanas, árabe, português, espanhol. Portanto, a história da produção reflexiva externa, devido à sua visibilidade e uso das referidas línguas oficiais de ensino, permite avaliar a recepção das literaturas africanas. Isto quer dizer que a sua fortuna crítica era basicamente constituída pelo resultado da actividade desenvolvida por professores que leccionam em instituições de ensino e críticos literários que lêem e escrevem nessas línguas.Pode dizer-se que há duas fortunas críticas – uma endógena e outra exógena – que correspondem aos interesses de duas comunidades interpretativas e respectivos mercados de interpretação.
Cânones: endógenos ou exógenos?
A essa dupla fortuna crítica está subjacente uma dialéctica de carácter institucional. Por um lado, temos o ensino das literaturas africanas em África. Por outro lado, há contextos europeus e norte-americanos de ensino das literaturas africanas.
Donde, a necessidade de estabelecer demarcações para a formação dos cânones para as literaturas africanas. As matrizes dos cânones literários orientam as leituras, interpretações, avaliações, padrões e critérios nesses espaços académicos.
Deste modo, os especialistas e críticos literários ocidentais defendem os modelos destinados às instituições e comunidades para as quais trabalham. Tais argumentações defensivas configuram dois comportamentos: 1) ignorância epistémica, como se em África não existissem outros padrões e critérios para leituras, interpretações e avaliações; 2) paternalismo epistémico, consistindo na imposição do seu cânone, presumivelmente melhor, de forma expressa ou tácita, através de procedimentos apoiados por indicadores reputacionais de um certo poder simbólico.
A violência simbólica dessas estratégias argumentativas e comportamentos de cariz defensivo estão na origem de controvérsias que, variando ao longo de décadas, ainda se manifestam em todas as literaturas africanas, especialmente sob a forma de um paternalismo epistémico. Por essa razão, a fortuna crítica endógena é marginal na Europa e nos Estados Unidos da América. Apesar de ser necessária para o cruzamento das perspectivas críticas e de um conhecimento mais aprofundado, a sua circulação é escassa nos mercados de interpretação ocidentais. Esta constatação permite concluir que a fortuna crítica ocidental se caracteriza por um fenómeno que deve mobilizar a nossa atenção à luz de uma orientação filosófica. Trata-se da ignorância epistémica.
Ignorância epistémica
Em África, a “epistemologia da ignorância”ou “agnotologia”é uma área da filosofia que começou a ser tematizada nas últimas duas décadas. Alguns autores consideram que a ignorância pode ser entendida como “descuido epistémico”. Inscreve-se neste debate o nome do filósofo nigeriano Kenneth Uyi Abudu, que é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Ambrose Alli. Ele intervém no debate através de umcapítulo da sua autoria,“Exploring Ignorance and Injustice in African Epistemology”,(Explorando a Ignorância e a Injustiça na Epistemologia Africana), do“Hand book of African Philosophy”, uma obra cujos co-editores são três filósofos, o nigeriano Elvis Imafidon, a sul-africana MphoTshivhase e o alemão Björn Freter.
Ora, a ignorância epistémica não se confunde com a epistemologia da ignorância, na medida em que no primeiro enunciado, a ignorância é qualificada por ser objecto de estudo da filosofia. Já epistemologia da ignorância é o domínio da filosofia que se ocupa da ignorância.Para Kenneth UyiAbuduo conceito de epistemologia da ignorância incorpora um sentido associado à “ideia de poder”.Assim, a“epistemologia da ignorância no pensamento africano”, no dizer deUyi Abudu, diz respeito “ao papel que a ignorância deliberada e não-deliberada desempenhou e continua a desempenhar na experiência e no processo de produção do conhecimento africano.” Este é problema que o conhecimento produzido pelos críticos literários evidencia. Verifica-se com frequência esse “descuido epistémico” no estudo das literaturas africanas porque a ignorância, apesar de “frequentemente ignorada no discurso da epistemologia (...) continua a desempenhar papéis importantes na alteração das tradições e estruturas epistémicas africanas.”Portanto, facilmente se conclui que a ignorância– deliberada ou não-deliberada – tem um grande peso no contexto das relações de poder que se estabelece entre a crítica endógena, de africanos, e a crítica exógena, dos ocidentais.
Paternalismo epistémico
Em finais do século XX, o filósofo Alvin Goldman (1938-2024) foi um dos pioneiros da tematizaçãodo paternalismo com o seu artigo “Epistemic Paternalism: Communication Control In LawAnd Society”, (Paternalismo Epistémico: Controlo da Comunicação no Direito e na Sociedade), publicado em 1991. Um dos destacados proponentes no debate sobre o paternalismo epistémico é o sueco Kristoffer Ahlstrom-Vij, especialmente com o seu livro “Epistemic Paternalism.A Defence”, 2013, (Em Defesa do Paternalismo Epistémico). Segundo KristofferAhlstrom-Vij, o paternalismo epistémico caracteriza-se pela interferência que afecta“a investigação de um determinado sujeito, envolvendo o acesso, a recolha e a avaliação de informação”. Aplicado à crítica literária, o modelo de paternalismo epistémico com que opera Kristoffer Ahlstrom-Vij distingue-se pela interferência praticada por um determinado crítico literário, em detrimento da investigação de outros críticos literários, à luz de três condições: 1) restrição da liberdade de os críticos literários conduzirem a sua investigação da forma como bem entender; 2) negação de consultar os críticos literários que sofrem a interferência, relativamente aos efeitos daí decorrentes; 3) finalidade da interferência que consiste em melhorar as propostas da crítica literária produzida pelos sujeitos visados. A primeira é a “condição de interferência do paternalismo epistémico”. A segunda é a “condição de não-consulta”. A terceira é “a condição de melhoria”.
Limites do paternalismo epistémico e dessuperiorização
A propósito deste tópico, menciono aqui dois nomes que destaco dos círculos académicos ocidentais. Por isso, merecem particular referência: o filósofo alemão Björn Freter e a filósofa britânica Emma C. Bullock. Evidenciam uma dicção distinta, no discurso filosófico sobre o paternalismo epistémico. O filósofo alemão operacionaliza o conceito de “dessuperiorização”. A filósofa britânica explora os limites do paternalismo epistémico, no artigo “Knowing and Not-knowing For Your Own Good: The Limits of Epistemic Paternalism”, (Saber e Não-Saber para Seu Próprio Bem. Os Limites do Paternalismo Epistémico),publicado na revista“Journal of Applied Philosophy”, em 2016.
Ónus da dessuperiorização
O conceito de dessuperiorização, elaborado por Björn Freter, remete para um sentido do ónus que se deve atribuir às antigas potencias coloniais, enquanto entidades que praticaram a ocupação e a agressão nos terrirórios africanos. Por essa razão, a dessuperiorização constitui uma obrigação de “descolonização prática”que incumbe às potencias coloniais europeias, entendidas como“usurpador colonial”. No dizer de Björn Freter, ao “usurpador colonial” cabe a responsabilidade de“trabalhar para estabelecer uma nova realidade na qual a transgressão colonial já não seja possível.” Mais adiante, assumindo o ónus enquanto europeu, acrescenta:
“A acção prática que nós, pensadores ocidentais, devemos compreender como a nossa tarefa central deve ser o trabalho de dessuperiorização do nosso pensamento e da acção correspondente como parte do processo de descolonização. A retórica política virulenta, como a exemplificada por Sarkozy, mantém o desprezo vivo. Só quando nos dessuperiorizarmos poderemos tornar-nos um parceiro digno de participar numa discussão séria com a África pós-colonial.”
Controvérsias
Como vimos, a génese das controvérsias, no domínio da crítica literária, remonta ao período que se seguiu aos processos de descolonização como obrigação do colonizador e às independências políticas africanas no século XX. Na comunicação que, na qualidade de “keynote speaker”, apresentei em 2010, na Universidade de Ouro Preto, aflorei o problema. O texto “A Incompletude do Processo de Disciplinarização das Literaturas Africanas”, foi mais tarde publicado em 2016, no número especial da revista “Journal of Lusophone Studies”. Trata-se de uma edição especial de homenagem ao professor e crítico literário norte-americano Russell Hamilton (1934-2016).A título ilustrativo, recorri à controvérsia que opôs o professor e crítico literário nigeriano Ernest Emenyonu ao professor e crítico literário norte-americano BernthLindfors. Emenyonu publicou o seu artigo, “African Literatures: What Does It Take to be its Critic?”, (Literaturas Africanas. O que é Preciso para Ser seu Crítico?), na revista African Literature Today, em 1971. Reagia ao texto de BernthLindfors, “Cyprian Ekwensi: An African Popular Novelist”, (Cyprian Ekwensi: Um Romancista Popular Africano),que tinha sido publicado na revista African Literature Today, em 1969. Uma década depois, Lindfors retomou o debate com um outro artigo,“The Blind Menandth eElephant”, (Os Cegos eo Elefante), publicadonamesma revista,em1982.
Tom paternalista
Chamo a atenção para a manifestação do paternalismo em textos de dois críticos norte-americanos. Anne Tibble(1906-1980) debruçou-se sobre a obra do escritor nigeriano, Amos Tutuola (1920-1997). Bernth Lindfors já tinha avaliado a obra do escritor nigeriano Cyprian Ekwensi, (1921-2007) quando, posteriormente, constituiu como seu oponente o professor e crítico literário nigeriano, Ernest Emenyonu.Para este crítico nigeriano não fazia sentido, tal como escrevia Anne Tibble, admitir que as fontes da imaginação de Tutuola se encontravam na literatura popular ocidental. Uma outra prova do paternalismo é invocada pela crítica literária britânica Amy Geraldine Stock (1902–1988), no artigo “Yeats andAchebe”, (O Poeta Yeats e Achebe), publicado em “The Journal of Common wealth Literature”, em 1968.Ela reportava-se ao facto de o título do primeiro romance de Chinua Achebe, (1930-2013),“Things Fall Apart”, (Tudo se Despedaça), ter sido inspirado por um poema de W. B. Yeats (1865–1939). Por sua vez, no artigo de 1982, Bernth Lindfors ironizava acerca do pensamento de Emenyonu, ao afirmar o seguinte:
“De facto, se toda a interpretação fosse deixada para os críticos literários nativos, a verdade poderia ser procurada, principalmente, a nível local, com as suas dimensões universais praticamente esquecidas. O bom senso simplesmente não permite que uma única tribo de críticos reivindique o monopólio da visão clara. Cada indivíduo terá os seus pontos cegos, e alguns críticos – nativos e estrangeiros – serão muito mais cegos do que outros. É por isso que qualquer obra literária necessita de toda a crítica possível. Só vislumbrando a verdade a partir de diversas perspetivas somos capazes de compreender as suas complexidades e ambiguidades. Só comparando diferentes pontos de vista sobre o mesmo assunto podemos chegar a uma concepção válida de como ele realmente se apresenta.”
Lindfors revisitou a problemática relação entre a crítica endógena e a crítica exógena com o livro que dedicou à questão do cânone literário, “Long Drums andCanons: Teaching and Researching African Literatures”, (Tambores Longos e Cânones. Ensino e Investigação em Literaturas Africanas)de 1995. Abandonando a discussão que gravitava em torno do par dialéctico, endógeno versus exógeno, a sua reflexão deslocou-se para o relativismo do cânone literário no ensino das literaturas africanas. Os seus exercícios aritméticos, em torno do cânone literário, são os exemplos do que parece remediar as suas posições no debate.
Charles Nnolim e a controvérsia
Em vida, o professor e crítico literário nigeriano Charles Nnolim prestou um valioso testemunho que permite, hoje, compreender os efeitos nefastos do paternalismo epistémico e da ignorância epistémica na critica literária africana. Concluímos a presente conversa com esse testemunho. Charles Nnolim relata o que se passou, quando contribuía para a leitura de um romance de Chinua Achebe, “The Arrow of God”, (A Flecha de Deus). Mas comecemos pelo impulso inicial desse debate, concretamente, cuja base é o problema das fontes da ficção literária africana. Nnolim tinha publicado um artigo, “A Source for Arrow of God”, (Uma Fonte para a Flecha de Deus), na revista “Research in African Literatures”, em 1977. Ao abrir o texto, o professor Charles Nnolim, afirmava o seguinte:
“Com excepção dos comentários ocasionais sobre fontes orais ou das literaturas orais, os estudiosos pouco têm dito sobre os materiais literários que os autores africanos utilizaram nos seus escritos. A minha própria pesquisa não me levou a nenhuma crítica investigativa que reconstruísse as fontes escritas de quaisquer obras longas de prosa ficcional africana. O que se encontra, provavelmente, são conjecturas vagas e teorizações suspeitas sobre fontes difusas, digamos, para a poesia de Okigbo. Muitos críticos, sem esforços meticulosos de comprovação, fizeram sugestões tímidas de que os romances de Achebe devem muito a Joseph Conrad. Uma possível razão para o vácuo existente no estudo das fontes da literatura africana é, naturalmente, a complacência: todos presumimos que os nossos escritores, especialmente os romancistas, não pesquisam as suas histórias, que o seu material lhes chega naturalmente como folhas a uma árvore e que tudo o que fizeram foi simplesmente reconstruir as suas histórias a partir do quotidiano da sua cultura. E um grande escritor como Achebe sempre deu a impressão de que tudo o que fez em ‘Tudo se Despedaça” e ‘A Flecha de Deus’ foi simplesmente reconstruir a cultura Igbo a partir do seu próprio conhecimento pessoal (o que é irrefutável) e de histórias contadas pelo seu pai e avô (o que deve ser interpretado com cautela).”
Conclusão
Seguiram-se várias reacções, alimentando o debate sobre a fortuna crítica e os seis problemas da crítica literária africana que enunciámos: 1) paternalismo epistémico; 2) ignorância epistémica; 3) monopólio do mercado da interpretação; 4) consagração assimétrica de uma legitimidade externa; 5) imposição de um cânone literário africano exógeno;6) aplicação do critério da objectividade.
Teremos a oportunidade de ler e analisar as posições dos apoiantes e oponentes de Charles Nnolim, entre africanos e não-africanos, tais como o serra-leonense Eustace Palmer,a britânica Catherine L. Innes, os norte-americanos Bernth Lindfors e Robert M. Wren (1928-1989).
*Ph.D. em Estudos de Literatura; M.Phil. em Filosofia Geral




