O bailarino Adriano de Freitas tem como foco projectar a identidade angolana além-fronteira e mostrar que a dança no país, além de movimento, é uma ferramenta de comunicação, socialização e preservação histórica.
Adriano de Freitas é filho de João André Francisco de Freitas e Rosa Miguel Pedro. Nasceu no município do Cazenga, próximo ao Marco Histórico do 4 de Fevereiro, onde o amor às artes era visível desde os mais velhos até às crianças, segundo o artista.
Casado e pai de três filhos, Adriano de Freitas explicou que cresceu com uma educação materna rigorosa. As dificuldades financeiras impossibilitaram-lhe de concluir os estudos, porém, sentiu-se motivado a apostar cada vez mais na prática da arte.
O artista explicou que escolheu a dança.Na época, os amigos sabiam dançar Kizomba, mas ele não.Segundo disse, as mulheres da comunidade zombavam dele.
“Procurei uma escola de dança, e, a partir daquele momento, comecei a evoluir, tanto é que passei a ser procurado pelos amigos, no sentido de instruí-los a dançar Kizomba e Semba”.
Acabou porabrir uma escola de dança no quintal da casa dos pais. Entre 2004 e 2006 evoluiu para outros estilos de dança e juntou-se a grupos renomados como Vissapa, Bailado do Fifi Show e 11 de Novembro.
O ponto mais alto, recordou, foi quando, em 2007, surgiu o convite para participar nos programas Janela Aberta, Horas Quentes e Tchilar, da Televisão Pública de Angola (TPA).
Adriano de Freitas realçou que quando percebeu que a dança é muito mais que diversão, sentiu a necessidade de pesquisar com profundidade. E, ao ler o livro “Alquimia da dança”, da coreógrafa Ana Clara Guerra Marques, entendeu que podia contribuir para a valorização desta expressão artística.
“Hoje, somos gratos pelo excelente labor prestado pela comunidade. Ao olhar para trás, sinto que foi uma boa ideia apostar na dança.Por via da dança ajudamos pessoas a socializarem-se e a deixar más práticas como a delinquência e a prostituição”.
Redução dos ritmos
Adriano de Freitas contou aoJornal de Angola que, actualmente, pratica pouco as expressões coreográficas, fazendo mais desenhos coreográficos, direcção artística e produção de espectáculo.
A decisão, expressou, surgiu quando decidiu produzir o espectáculo temático “Ritmos e Rituais”, que mereceu aplausos do antigo director provincial da Cultura do Governo Provincial de Luanda (GPL),Manuel Gonçalves, que, actualmente, é o vice-governador para o sector Político e Social.
Na época Manuel Gonçalves convidou Adriano de Freitas e o seu grupo a abrir o espectáculo dedicado ao Dia da Cultura Nacional.
Adriano de Freitas lembrou que depois da produção do espectáculo passou a investir mais em cursos técnicos de elaboração de guiões, produção, venda de obras de danças e em direcção cénica.
Na área criativa, salientou, procura trabalhar mais na pesquisa da escrita sobre música, danças populares e conflitos entre diferentes géneros de dança, com realce para a“confusão” entre rebita e massemba.
Inauguração do Centro
Ao longo da carreira artística Adriano de Freitas tem dado passos firmes rumo à conquista do mercado nacional e internacional. Em 2025, inaugurou o Centro de Formação Comunitária Artística e Profissional, na província do Icolo e Bengo, no Zango III.
Por via do centro, ressaltou, tem gravado o podcast “Cultura Nua”, proporcionando diálogo à volta da desvalorização do capital artístico.O podcast já teve a prestigiosa participação do músico Carlos Lamartine, da jornalista Sofia Lucas, dos actores Raúl do Rosário, Fernando Maiologe e Elizabeth Rodrigues e dos docentes Sita Sadok e Domingos Nguizani.
Para o coreógrafo Adriano de Freitas, a dança pode ser um grande veículo de sustentabilidade para a economia nacional. Exemplificou com a expansão da Kizomba pelo mundo, gerando rendimentos significativos.
Mas, disse, a dança no país encontra-se dividida na “bicefalia”, ou seja, existem duas correntes de pensamento: uma defende os movimentos contemporâneos como base fundamental para o desenvolvimento da classe, devendo ser incluído no sistema de ensino, enquanto a outra defende as danças folclóricas, tendo como base o autodidatismo.
Do Cazenga para o mundo
O bailarino Adriano de Freitas vai representar o país, entre os dias 11 e 15 deste mês de Novembro, no 12º Congresso Internacional de Pesquisa de Dança, a decorrer nos Estados Unidos da América.O encontro vai reunir investigadores, professores, coreógrafos e bailarinos para partilha de relatórios de pesquisa, palestras, seminários e performances interculturais. Adriano de Freitas explicou que pela segunda vez integra o Conselho Internacional da Dança (CID), da UNESCO.
O bailarino, coreógrafo e empreendedor tem um convite para participar, entre 20 e e 25 de Novembro, na Cimeira da CID, na capital da França.
Adriano de Freitas referiu que ao longo do seu percurso tem desenvolvido trabalho direccionado para a promoção da dança e da cultura nacional, de modo a contribuir para a valorização e divulgação desta expressão artística.
O bailarino reconheceu que a sua integração na CID abre espaço para uma maior ligação com profissionais e instituições internacionais, permitindo-lhe levar a realidade e as experiências da dança angolana para além-fronteiras.
Adriano de Freitas augurou levar mais longe a “voz” da dança angolana, assim como partilhar experiências, estabelecer novas conexões e abrir caminhos para futuras parcerias e oportunidades para os profissionais angolanos da cultura e das artes.
O artista explicou que tem como foco projectar a identidade angolana e mostrar ao mundo que a dança angolana, além do movimento, é uma ferramenta de comunicação, socialização e preservação histórica.




